Abstinência sem síndrome


Quase três meses distante das redes sociais e percebi um resultado extremamente positivo: diminuiu muito minha ansiedade.

Ansiedade sem perceber, mas aquela vontade quase incontrolável de postar algo, de comentar, de dizer algo.

Há mais de 25 anos transito pelas redes sociais. Desde o mIRC, passando pelos grupos de discussão do AOL, AIM, ICQ, MSN, Orkut, chegando ao Facebook, Instagram e Whatsapp, para falar apenas dos mais conhecidos.

Criei meu primeiro perfil no Facebook em 2008, atingindo cinco mil “amigos” em pouco tempo e em 2009 criei um segundo perfil, também chegando ao limite dos cinco mil rapidamente.

Minha postura, em todo este tempo, sempre foi crítica, com posições fortes e muitas vezes contundentes, porém respeitando as opiniões divergentes, quando bem estruturadas e argumentadas.

Mesmo nos períodos mais críticos em nossa política, emitia opiniões, debatendo e trocando ideias com diversas correntes e poucas vezes sofri algum ataque mais agressivo.

Isto até 2018. Desde então, os ânimos recrudesceram muito, com muito mais agressividade, ofensas pessoais, longe dos debates sadios, argumentativos.

Em 2010 meu blog já havia sofrido um ataque hacker, ficando fora do ar por 48 horas. Em 2015 postaram fotos pornográficas em meu perfil no Facebook, numa clara tentativa de provocar meu banimento da rede. Mas foram fatos isolados, rapidamente resolvidos.

Neste ano de 2021 a situação piorou muito. Começando com a clonagem de um dos meus chips, onde acessaram um de meus Whatsapp, tiveram acesso as minhas listas de contatos. Em seguida a tentativa de extorsão, com montagens grotescas de fotos e assedio a minha filha. Fatos devidamente reportados à polícia. Quando imaginei ter passado o pesadelo, os cinco canais do YouTube que administro, todos de cunho jornalístico, sofreram ataques e dois deles foram banidos, por desrespeito às regras, me obrigando a entrar com recursos, ainda sem solução ou qualquer resposta da empresa.

Minha abstinência foi forçada. E agora, retornando, minha postura será muito diferente. Meus perfis serão fechados e mais nenhuma informação pessoal estarão visíveis, mesmo aos amigos. Assim como deixarei de postar qualquer evento ou momentos pessoais com meus filhos, meus amigos, meu amor. Tudo isto ficará restrito apenas a mim e aos meus mais chegados, de forma privada.

Tenho consciência de ser uma figura pública, por minhas atividades jornalísticas e minhas atividades anteriores como líder comunitário, presidente de associações e membro de sindicatos. E não tenho postura arrogante em relação a isto. São fatos, são consequências de minhas atividades, das quais jamais abrirei mão.

Me sinto entristecido por ser obrigado a restringir minha liberdade, em nome da minha segurança, segurança de minha família, de quem amo.

Mas são os novos tempos. Hoje não basta apenas termos grades em nossas janelas, muros altos em nossas casas, alarmes. Também temos de cercar nossas redes sociais, para nos protegermos da sub espécie humana, que se locupleta em praticar ataques àqueles cujo único objetivo é informar e promover debates, trocas de ideias, elementos essenciais ao nosso crescimento como pessoas.

Silvio Luiz Belbute 
Jornalista e sociólogo 
MTb 0018790/RS