Teoria & Prática

 

Estes dias, conversando com uma querida amiga pelo Whatsapp, falávamos sobre as questões sociais que afligem boa parte dos brasileiros. Discorremos sobre ações de governo, projetos de ONGs e tantas outras coisas. Dizia-lhe: acionasses um botão difícil de desligar. Referia-me ao tema do nosso “bate papo” virtual, que me é muito caro e pelo qual discorro por horas intermináveis.

A certa altura, me disse: mas temos de exercer tais práticas no nosso dia-a-dia, em nossa família, com nossos amigos, vizinhos, em nosso trabalho.

Falávamos, a esta altura, das bandeiras levantadas por muitos, mas na prática pouco exercidas.

E é uma bela reflexão, principalmente nestes tempos de acirramento de ânimos que vivemos.

O ponto de partida é a pessoa, o indivíduo. Tomando consciência de viver em uma sociedade multifacetada, multicultural, onde primeiramente deva imperar o respeito às diferenças.

De nada adianta professar alguma fé – frequentar centro espírita e lá trabalhar, frequentar templos e pagar o dízimo (seja evangélico ou católico) – se não tiver um ato de gentileza e respeito ao próximo, longe destes ambientes.

O olhar para a pessoa, o enxergar a pessoa, deve ser prática cotidiana. Pouco importando grau de instrução, condição socio econômica, credo, etnia, gênero, crença política. É perceber a pessoa como pessoa, com seus dilemas, dramas, inseguranças, muitas vezes disfarçados por sorrisos e certezas.

Frequentemente se vê nas redes sociais, forte engajamento em situações de catástrofe, como ocorrida recentemente – e novamente – no Haiti. Sim, isto é lindo. Mas a maioria dos engajados, que compartilham pedidos de ajuda, desconhecem os “haitis” de sua vizinhança próxima. Como em Porto Alegre, por exemplo, e seus muitos “haitis” a apenas dois quilômetros do centro da capital dos gaúchos. Bem como as outras centenas de “haitis” nas periferias das grandes cidades, país a fora.

Também se vê com frequência, postagens a cerca de “racismo”, preconceitos de todo tipo. Mas fica a dúvida: certo, muito bonito da sua parte, seu engajamento nestas bandeiras. Mas me diga, em sua empresa, você emprega pessoas de outras etnias e gêneros? Na sua casa, a pessoa contratada para os serviços de limpeza, almoça com vocês e seus familiares à mesa? Você fala sobre estes temas com seus filhos?

Não basta apenas dar o “troquinho” no sinal ou comprar as balinhas da criança que as vende. É preciso mais. Porém, muitos imaginam estarem fazendo sua parte, com ações – louváveis – mas pequenas.

Outros tantos, nos meios sociais, passam a imagem de moderação e empatia. Mas estes, conversam com os filhos, permitindo que abram seus corações e falem das coisas que lhes incomodam? E se o fazem, apenas escutam ou ouvem de verdade.

Empatia não é apenas uma linda palavra da moda, é uma qualidade fundamental do ser humano e deve ser exercida em sua plenitude. Tal como “ressignificação” e “resiliência”. Apenas terão valor, de fato, se praticadas no dia-a-dia.

Comentava com esta minha amiga, em nossa longa e enriquecedora conversa, sobre os exemplos de acolhimento vindos de minha casa. Meus pais acolhiam e acolheram muitas pessoas. Mesmo sem grandes posses ou condições, abrigavam, alimentava e mais, estimulavam aos estudos, à educação. Eles mesmos pouco letrados.

Este ensinamento trouxe para minha vida, para meu dia-a-dia e tive a enorme felicidade de poder repassá-lo aos meus filhos.

Mais que longos discursos, os exemplos são mais significativos e ensinam de uma forma muito mais eficaz. Em minhas ações sociais, sempre tive a companhia de minha filha, ainda criança.

Certa feita, quando limpávamos uma praça perto de casa, recolhendo o lixo – ela tinha então seis anos – alguns moradores de rua se aproximaram e me pediram um cigarro (sim, eu fumava nesta época). Então lhes propus uma troca: daria a cada um, um maço de cigarros, se me auxiliassem na limpeza. Toparam, deixamos a praça quase “brilhando” e lhes dei o pagamento. Dias depois os encontro na rua e me abordam: “tio, quando precisar limpar a praça lá, só nos chamar”.

Sim, nossos problemas sociais brasileiros são muitos e complexos. Porém, penso que cada ação individual, quando somadas, são capazes -mesmo que não resolvam definitivamente – de aplacar as emergências.

Sim, temos muitas ações de grupos, dedicando seu tempo, suas noites ou finais de semana, no preparo e distribuição de alimentos. Não resolve o problema, mas ameniza a urgência.

E são estas atitudes cotidianas, de cada um individualmente, somadas, capazes de promover as mudanças sociais almejadas. Mas é necessário mais. É necessário envolver os jovens, desde muito cedo, para aprenderem com os exemplos e se tornarem cidadãos multiplicadores.

E isto, meus caros, é educação. Não a educação formal, dos bancos de escola. Mas é educação para a vida, para o pleno exercício da cidadania.

Todas as teorias sociais são muito bonitas, todas as bandeiras desfraldadas são válidas. Porém, somente a ação prática em nosso cotidiano será capaz de validá-las.

E tudo isto não depende de um governo ou governos, nem de ideologias. Depende, exclusivamente de cada um de nós.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS