Sentimento de Finitude

 

Uma das questões mais importantes da psicologia é lidar com pessoas, cujo sentimento de finitude as engessam, as prendem na sensação de morte iminente. Tal sentimento é mais comumente desenvolvido em pacientes com doenças terminais, mas também com idosos acima dos 60 anos (estou com 61 anos e não consigo me ver como um idoso, mas aí é outra história).

O sentimento de finitude coloca a pessoa numa espécie de “standby”, aguardando o momento de sua passagem. Seus pensamentos se tornam desesperançosos, sombrios, pela ausência de perspectivas futuras. Passam a contar o tempo pelo tanto que falta, não mais pelo quanto ainda podem realizar. É como uma espécie de cansaço, não se sentir com forças para criar, para viver.

A inatividade, principalmente no pós aposentadoria, contribui demasiado para este sentimento.

Vi acontecer com meu pai, após a partida de minha mãe. Sentia-se só, perdeu a pessoa que o motivava – muitas vezes à força – para realizar diversas funções. Seus dias passaram a ser de leitura da bíblia por horas, como quem busca uma ligação com aquilo que virá. Com a gravidez de minha primeira esposa, de nossa primeira filha, o evento lhe deu um “up” e esteve conosco por mais 18 meses.

Pensar em nossos limites temporais não deve ser impedimento para a realização de sonhos, de novos projetos, de nos mantermos ativos até o momento final. Enquanto há vida, há esperança. Não de mais vida, mas de vida mais vivida.

Tenho 61 anos e clara visão de mais 15, 20 anos no máximo, neste plano. É uma existência, com muito para fazer, muito a realizar. E esta visão não me engessa, ao contrário, me estimula, exatamente por perceber o quanto me resta e o tanto que desejo construir neste tempo.

Nunca pensei na aposentadoria no sentido de “agora vou descansar”. Aliás, nunca pensei em aposentadoria. No sentido de ter o retorno dos anos de pagamento ao governo, claro, desejo conquistar o que me é de direito. Porém, jamais parar de fazer o que gosto, de me manter ativo, de me sentir vivo.

Infelizmente ainda não temos uma política pública, buscando preparar as pessoas para a aposentadoria. E quem sabe seja até desnecessária. Talvez as empresas possam criar uma visão mais humanista de seus colaboradores e então desenvolverem programas de preparação para a este tipo de afastamento das pessoas de seus quadros. Também as famílias devem se envolver nesta missão, acolhendo seus idosos e promovendo atividades em conjunto.

Talvez seja um pensamento utópico: mas como bom integrar aposentados com jovens, onde as experiências de vida, os conhecimentos, pudessem ser transmitidos, dando a estes jovens condições de absorverem saberes que vão muito além das salas de aula, bem como oportunizar, aos mais velhos, a sensação de bem estar, por estarem sendo úteis e valorizados.

Agi assim com meu pai, sempre inventando algo para fazermos juntos. Tantas vezes o levei para a praia – mesmo a contragosto dele. E, claro, depois se sentia bem, em podermos tomar um chimarrão na beira mar, caminharmos, conversarmos. Outras vezes buscava seu apoio e conhecimento na realização de tarefas, como substituir um ponto de luz (foi eletricista a vida toda), ou montar uma mesa, ou pintar uma peça. E mesmo falarmos sobre diversos outros temas, onde a sua experiência de vida, dava norte as minhas ideias. Enfim, algo que pudesse fazê-lo se sentir ÚTIL.

Ter a visão de partir aos 76 ou 81 anos, não me deprime, não me abala. É como ter um projeto com prazo de entrega inadiável e ter de realizá-lo neste tempo. E isto me estimula a saborear cada momento com mais prazer, cada encontro com meus filhos e amigos, com mais sentimentos, com mais emoção, com muito mais vontade. Saboreando cada momento, como quem degusta um raro vinho.

Viver é uma maravilhosa aventura. E enquanto viver, quero realmente viver e vivenciar tudo quanto possa, intensamente.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS