Independência ou morte? Não é bem assim

 


O Sete de Setembro é apenas uma miragem, infelizmente vendida ao povo brasileiro, como sendo de sua efetiva independência. Ledo engano.

Primeiro, por ser o dia sete deste mês o dia em que Dom Pedro I lê o decreto assinado por sua esposa - Dona Leopoldina - no dia dois de setembro, após reunião do Conselho de Estado. O decreto da princesa regente-interina é o ato de declaração da independência da colônia do império português. Ao príncipe regente coube o papel de ler, juntamente com a carta e fazer um breve discurso às margens do arroio Ipiranga. A parada foi obrigatória, pois o futuro imperador estava acometido de mal estar estomacal, necessitando se socorrer do matagal, para aliviar sua aflição.

Então, aquela imagem, montado em um cavalo, desembainhando a espada e gritando “independência ou morte”, não passa de ilustração fantasiosa.

Nenhum tiro foi disparado, não houve embates. Não conquistamos a independência, como tantas nações ao redor do mundo, pela luta. Apenas um decreto e a ratificação deste decreto. Sem grandes solenidades.

A verdadeira independência poderia ter ocorrido anos antes, quando os conspiradores mineiros planejavam uma revolução, conclamando o povo a lutar contra o império e declarando não apenas a separação, mas o surgimento de uma república. Porém, Tiradentes fora traído, morto e esquartejado, servindo de exemplo para intimidar outros conspiradores.

Naquele Sete de Setembro houve apenas a separação do país do império português, mas mantendo a monarquia, agora nas mãos do imperador Dom Pedro. As exportações para Portugal continuaram, o comércio seguiu firme e a exploração de nossas riquezas também. A escravidão e comércio de escravos seguia forte, bem como a cobrança de escorchantes impostos, para manutenção da Coroa e elite brasileira.

Dom Pedro I continuou como membro da coroa portuguesa, ou seja, sua ligação permanecia, apesar de sua briga com o pai – Dom João VI. Tanto assim que, após renunciar ao trono no Brasil (forçado pelas elites brasileiras e pela inquietação do povo), volta à Portugal e se une aos revolucionários liberais contra seu irmão, para garantir a ascensão ao trono português, de sua filha Dona Maria.

Se houve um ato de independência no país, este se deu com o golpe de estado patrocinado por Manuel Deodoro da Fonseca. Militar, também déspota, só não teve êxito em formular uma constituição autoritária e militarista, pelas ações do liberal Benjamin Constant, com quem teve sérios atritos.

Sim, meus amigos, sinto lhes informar: o sete de setembro pode até causar ufanismo, mas é apenas ilusório, apenas uma fantasia, um conto de fadas.

A formação das castas políticas e seus privilégios, começaram no Brasil Império, sob a batuta de Dom Pedro I e foram herdadas pelo Brasil República, existindo até hoje. Nenhuma das tantas revoluções e contra revoluções, pelas quais passamos, conseguiu erradicar esta mazela brasileira. Em nenhum governo, militar ou civil, ao longo de nossa história teve êxito neste quesito.

Sim, vivemos em uma democracia ainda emergente, ainda na infância, engatinhando a sobre saltos para uma consolidação democrática, mas levará alguns anos. E democracia não é apenas ter direito ao voto.

Poderemos, finalmente, bradar “independência ou morte”, quando todos os direitos individuais forem respeitados; quando de fato as leis se aplicarem igualmente a todos os brasileiros; quando eliminarmos as castas e seus privilégios, em todos os níveis; quando houver respeito de verdade ao cidadão; quando houver de fato a universalização da educação de qualidade, acessível a todos; quando o Estado deixar de tutelar o povo.

Então, neste dia, teremos efetivamente conquistado a nossa verdadeira Independência.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS