Ela rejeitou ser musa

Cantada em versos e prosas, em preciosas descrições de sua beleza exterior e interior; amada por seu iluminado sorriso; seu gestual elegante e suave; seu olhar apaixonado e seu semblante extasiado, após intensa troca de prazeres.

Mesmo assim, rejeitou ser musa, por não entender ter as qualidades necessárias ao posto. Não importando as declamações rimadas e palavras entusiasmadas do poeta apaixonado e enamorado.

Sua baixa autoestima falava mais alto; suas complexidades em relação ao seu físico perfeito – no olhar de quem a amava – eram mais contundes que quaisquer poemas recitados de pronto, ali inventados, naqueles sublimes momentos de contemplação.

Assim mesmo, rejeitou ser musa.

Apesar da suavidade de seu toque, da profundidade de seu beijo, de sua plena entrega ao amante, permitindo-se sentir e ser explorada, sem pudores, transbordando sua sexualidade latente, contorcendo-se como quem enfrenta o vento, enrijecendo toda musculatura nos momentos anteriores ao gozo de cada encontro.

Mesmo assim, rejeitou ser musa.

Mesmo confrontada diante ao espelho, em que eu amado demonstrava e explicava com carícias e beijos, toda aquela avassaladora beleza, de um corpo maduro, recém descobrindo prazeres ocultados e desconhecidos por tanto tempo.

Assim mesmo...rejeitou ser musa.

O poeta, com o peito explodindo de paixão, de tudo fez. Também ele se descobriu, envolvido pelas caricias de sua então amada, vertia seu deleitoso envolvimento em rimas construídas pelos sabores que sentia.

E mesmo assim...ela rejeitou ser musa.

Nem palavras, nem gestos, nem carícias, nem beijos ardentes foram suficientes para fazê-la assumir aquele glorioso papel.

Impotente, o poeta silencia. Deita sua pena no tinteiro, para dali não mais a retirar. Guarda as folhas rascunhas, com ainda tantos versos a finalizar. Nada mais podia fazer, diante de tal recusa, inominável recusa. Para este momento sequer havia um verso a compor.

Porém, ergue seu semblante, suspira com profundidade e caminha em direção ao mar e ali se deixa ficar por longos momentos, respirando a maresia, permitindo aos raios solares acariciarem sua pele saudosas das caricias de sua ex-musa; o vento suave sopra, o envolve, bagunça seu grisalho cabelo, sussurrando aos seus ouvidos: vai, há uma outra musa aguardando ansiosamente ocupar seu lugar de direito e fazer jus aos teus versos.

Renovado, reenergizado, parte em sua busca de sua merecedora musa, a quem dedicará seus mais sensíveis e profundos escritos.

Pois um poeta não vive sem poetar.


Silvio Luiz Belbute
Poeta