Corrupção nossa de cada dia

Enganam-se todos ao acreditarem em apenas um nome, ou um alguém, possa sozinho combater a corrupção. Combatê-la é tarefa de todos, todos os dias, desde a luta contra os privilégios das castas políticas e judiciais.

Porém, além e acima de tudo, é preciso entender a corrupção como um fenômeno social, arraigado em um estado patrimonialista, onde todos, ao ascenderem ao poder, tomam a coisa pública como se sua fosse, privativa.

Enganam-se todos ao imaginar corrupção apenas no desvio das verbas públicas. É preciso olhar-se no espelho e analisar nossos atos cotidianos: parar sobre a faixa de pedestres ao deixar ou buscar os filhos na escola e ali ficar em fila dupla, impedindo a passagem de outros; não devolver a quantia a mais, quando o caixa erra o troco; superfaturar notas de reembolso apresentadas para a empresa; fazer “gatos” de energia e água; trocar uma peça em bom estado por outra defeituosa, que causará problemas em breve, obrigando o consumidor a novo concerto, seja do carro, de um equipamento ou utensílio doméstico. Enfim, há exemplos de todos os tipos, para todos os gostos, praticados diariamente pela sociedade, contra a própria sociedade.


Portanto, vale dizer: a sociedade é corrupta. E sua representação política, apenas representa esta parcela social.

Quando um pai vê seu filho pegar algo que não lhe pertence e não o repreende, está ali mesmo incentivando a corrupção. Quando um prestador de serviços eleva seu preço ao ver que seu futuro cliente tem “melhores condições”, está praticando corrupção. Quando sabemos algo verdadeiro e mesmo assim compartilhamos “fake news”, estamos praticando corrupção.

Poderia escrever linhas e linhas, uma enciclopédia, recheada de exemplos.

Não, a corrupção não é um mal brasileiro. Não, a corrupção não foi inventada por determinada ideologia política. Não, a corrupção não tem a ver com graus de conhecimento, ou de dogmas religiosos, ou de quaisquer outros fatores. Corrupção tem a ver desvio de caráter, corrupção tem a ver com impunidade.

Aí está a diferença entre nós, brasileiros, e outras democracias consolidadas: a responsabilização dos atos de corrupção, seja no setor público, seja no setor privado. Sem privilégios, sem foros especiais de julgamento, sem dó, nem piedade.

Em nosso país, a corrupção data do descobrimento, quando Pero Vaz de Caminha escreve ao rei de Portugal, contando sobre as maravilhas de nossa terra e aproveita para pedir-lhe um cargo ao genro (dizem haver controvérsias nesta história, porém, fico com a versão mais alardeada. Se em algum momento perceber o equívoco, tratarei logo de corrigi-lo).

E assim é o nosso Estado, e assim é o patrimonialismo: onde poucos usufruem dele, tomando o bem social para si.

Em muitos casos, a corrupção é tolerada, por se tratar de “justiça social”. Ora, de um fruto podre, não haverá de crescerem bons frutos. Portando, trata-se apenas de “normalizar” tais atos (como os “gatos” de energia e água), pela falência do Estado no atendimento do mais básico, enquanto poucos se locupletam com a verba alheia.

No âmbito do Estado, bem disse Margaret Thatcher – ex-primeira ministra do Reino Unido: “Não existe essa coisa de dinheiro público, existe o dinheiro dos pagadores de impostos”. Portanto, quando esta verba é mal gerida, mal versada ou desviada, é da sociedade que está sendo roubada.

Mas não há de se punir apenas os mandatários, ao proverem suas “rachadinhas” (prática tão antiga quanto a prostituição), ou por comprarem – com nosso dinheiro – refinarias sucateadas, há de se punir todo e qualquer ato de quaisquer membros da sociedade, sejam políticos ou não. Sem tergiversações.

A ausência de punições é promotora dileta e direta de mais corrupção.

Seu combate deve ser cotidiano, por todos, toda a sociedade, sem “símbolos”, sem “mitos”, sem “caçadores de marajás”, sem falsas “vestais”.

Os discursos são lindos e maravilhosos, agradando aos ouvidos, vendendo falsas ideias, distantes, porém da sua prática. Somente atitudes, mais que palavras, são capazes de demonstrar, efetivamente, o cumprimento de promessas.

Mas é preciso evoluir mais, onde palavras bonitas serão dispensadas, pelas ações cotidianas de todos nós.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS