Sinuca de bico

 

O estilo do presidente nunca foi de mediador, apaziguador. A personalidade de Bolsonaro é de incendiário, de confronto, de imposição de sua vontade sobre os demais. Também não é de sua personalidade o respeito à autoridade e sua história no Exército brasileiro demonstra tal fato com clareza, como também sua passagem por mais de oito partidos.

Bolsonaro não aceita ser contraditado, é irritadiço e logo levanta a voz e parte para agressões verbais, como cansamos de assistir em suas relações com a imprensa, culpando-a por suas desventuras.

Nunca antes na história deste país um presidente apresentou pedido de impeachment de um juiz da Suprema Corte. As relações do presidente com os demais poderemos é e sempre foi tensa. Desde a campanha, afirmando uma “nova política”, dizendo jamais utilizar das “barganhas”.
A crise institucional, por ele provocada, poderia ainda ser superada, enquanto ficassem apenas no âmbito das “bravatas” e discursos para agradar sua claque, cada vez mais diminuta. Porém, sua atitude na última sexta-feira, dia 20 de agosto, a agravou e joga o país num cenário ainda imprevisível nos próximos meses.

As repercussões, todas negativas, já se fazem sentir na política e principalmente na economia. O ambiente conflagrado, espanta investimentos e investidores, gera temor pelo futuro, provocando alta do dólar, impactando diretamente no bolso de todos os brasileiros, principalmente os menos afortunados; queda nas bolsas de valores e desvalorização dos títulos públicos, acentuam o déficit público, cujo impacto se fará sentir ainda por alguns anos.

As reformas necessárias para solucionar nossos problemas, seguirão em “stand by” no Congresso. A indicação de André Mendonça para o STF já foi congelada pelo presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Davi Alcolumbre. 

O presidente segue com “sangue nos olhos” e já anunciou que pedirá também o impeachment do ministro Barroso, colocando ainda mais gasolina no incêndio por ele provocado.

Com sua popularidade derretendo a olhos vistos e de forma acelerada, os cenários eleitorais em que perde para todos os concorrentes, em eventual segundo turno em 2022, são ainda mais lenha para a fogueira bolsonarista.

Bolsonaro tenta o golpe, incitando a população a tomar as ruas, ameaçando o uso da força e das Forças Armadas – que não se arriscarão em nova aventura – tentando se firmar no poder ao melhor estilo chavista.

A crise é gravíssima. Os bombeiros de plantão não têm conseguido êxito em apagar as chamas. 24 dos 27 governadores reúnem-se em Brasília para tentar fortalecer a República e as instituições. Algo inédito também em nossa história.

Os cenários no curto prazo são ainda imprevisíveis. O governo se torna um “pato manco” e terá muitas dificuldades em governar no ano e meio que ainda tem de mandato. E nem mesmo a remoção do presidente, num eventual impeachment, aplacará os ânimos.

Estamos, senhoras e senhores, em uma “sinuca de bico”.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS