Barganha é o nome do jogo

 

“Bazar eleitoral”, charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867.

O sistema político brasileiro é feito sob medida para corrupção.

Neste sistema, temos dois componentes chaves, cúmplices das ações de um e de outro: o eleitor e o político.

O eleitor brasileiro ainda não evoluiu ao ponto de pensar em projetos e país, de nação. Ainda está preso aos currais eleitorais, preso a nomes “fortes”, que representem seus anseios íntimos, ao invés dos desejos e necessidades coletivas. Basta alguém se sobressair por atos isolados, para ganhar o “status” de presidenciável. Basta alguém com bons ouvidos, para capturar os pensamentos de parcela da população e deles elaborar discursos inflamados, ganhando repercussão, cooptando novos eleitores, juntando o rebanho desgarrado.

Os políticos conhecem muito bem os eleitores e trabalham exatamente dentro destes padrões, oferecendo discursos demagógicos e promessas vãs, modeladas pelo marketing político, dando aos ávidos ouvidos o que desejam ouvir.

E assim seguimos eternamente, alternando entre populistas, sem projetos de futuro ou apenas projetos de poder, de perpetuação no poder, alimentando-se da máquina pública, fortalecendo o patrimonialismo – dentre outras, uma das piores ervas daninhas.

No poder, confundir o público com o privado, tornou-se praxe de quem governa. E pasmem: muitos eleitores não veem problemas nisto. Nem os de esquerda, nem os de direita (ressaltando que no Brasil não temos uma “direita”).

Neste sistema, a barganha é a arma do jogo político. E como não há projeto, o balcão fica aberto a todas as ideias, em todos os setores. Importa negociar cargos, definir sua importância e as verbas com as quais vai trabalhar. Não há ideologia, há apenas negócios e vence quem conseguir amealhar o maior número de apoios, com a maior distribuição de cargos e verbas.

E quem se colocar contra o “establishment” será perseguido, sofrerá “assassinato de sua reputação”, para deixar de atrapalhar os negócios do poder. Novamente aí, não importa a ideologia. Importa o poder.

Justamente por estas razões, os candidatos jamais apresentam chapas prontas, com nomes que coordenarão secretarias e ministérios e seus projetos em cada área. Tudo fica para depois das eleições. O mesmo vale para os estados e municípios. 

Num país onde há de fato transparência, onde todas as contas de governo são abertas e todos os atos são claros e possíveis de serem checados e conferidos, jamais haveria o discurso de “herança maldita”. Um governo poderá errar e o seguinte poderá corrigir, tudo em público, aberto, franco. Mas no sistema atual, nem tudo é claro, existem os “bastidores”, onde de fato, o jogo é jogado. Então é preciso haver sombras, ocultar tudo que não desejam ser visto pelos olhares mais atentos.

E o ciclo se repete “ad nauseam”, visto que os interesses são os pessoais; os da nação estão apenas nos discursos.

Precisamos amadurecer politicamente. Precisamos começar a pensar no país como um todo e em cada setor e região, contemplando suas diversidades e peculiaridades. Precisamos promover a Federação, onde cada ente é independente do poder central e centralizador, em todas as áreas, a começar pela tributária. Precisamos, urgentemente, de um projeto de nação, pensando em nossas necessidades urgentes e ao mesmo tempo em nossas futuras necessidades nos próximos 25, 50, 100 anos.

É urgente acabarmos com a barganha. É urgente acabarmos com as negociatas por cargos e posições políticas. É urgente começarmos a enxergar nossos políticos, em todas as esferas de poder, como nossos empregados, nossos funcionários, não como “autoridades”.

Finda a barganha, também terminarão as “emendas parlamentares”, as destinações de verbas para agradar mais a uma região, em detrimento de outra. Terminarão os privilégios das castas políticas, com seus carros pagos por nós, com o reembolso de combustível pago por nós, com os auxílios dos mais diversos, com as benesses que nenhum outro trabalhador privado brasileiro recebe.

Mas para terminarmos com a barganha, precisamos mudar a nós mesmos. Precisamos deixar de acreditar em “salvadores da pátria”, deixarmos de acreditar que um nome possa ser consagrado e ter poderes de fazer as mudanças sozinho. Primeiro por ser ridículo e infantil crer nisto, segundo porque nosso sistema não permite.

Um projeto de país independe de nomes, depende apenas de pessoas capacitadas para executá-lo e torná-lo realidade para todos os brasileiros.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS