Sobre versões e verdades

“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.” (Friedrich Nietzsche)

Philosophia”, durante muito tempo foi definida como “amiga da verdade”. Porém, o conceito de fato é “amor pela sabedoria”, “amor pelo conhecimento”.

Faço questão de citar Nietzsche logo no início, bem como o conceito de filosofia, para contextualizar este texto.

A vida é uma sucessão de acontecimentos, onde são acrescentados novos fatos e novos conhecimentos a cada dia, a cada hora, a cada minuto. E os indivíduos têm visões e opiniões diferentes sobre os mesmos. Seja pelo conhecimento acumulado até aquele momento, seja pelo sentimento em relação a realidade apresentada à sua frente.

Platão nos ensinava ser a filosofia “a investigação da dimensão essencial e ontológica do mundo real, ultrapassando a opinião irrefletida do senso comum que se mantém cativa da realidade empírica e das aparências sensíveis.”

Assim, um observador sócio filosófico, busca entender exatamente este comportamento dos indivíduos, sobre suas convicções ou aquilo imaginado ou sentido como tal.

Observando o cenário social hoje, especialmente no Brasil, percebemos uma guerra de narrativas, onde grupos – fechados em suas bolhas – se dizem detentores da “verdade”, refutando sequer ouvir quaisquer indícios de tais “verdades” estarem baseadas em falsa premissas.


Portando, vale mais a versão sobre fatos e acontecimentos, muito mais que os fatos em si. E há uma retroalimentação dentro destes grupos, fortalecendo a “convicção” de seus participantes, baseados na versão.

“Verões” são baseadas no senso comum, na “aparência sensível”, aquilo que está mais adequado ao nosso sentimento, muito mais que a realidade. Então, é normal a rejeição, até porquê ninguém gosta de sentir que está errado, equivocado ou iludido. E esta rejeição se manifesta, via de regra, em agressões, ataques verbais, buscando destruir a outra “versão”, calando quem a manifesta.

Refutar uma versão ou versões, com argumentos, baseados em conhecimentos, é raríssimo.

Galileu Galilei, cientista do século XVI, um dos fundadores da experimentação e do método científico, foi obrigado a retratar-se depois de ter afirmado não ser a Terra o centro do universo. Seus detratores basearam-se no “senso comum”, em crenças baseadas em superstições, em falsas premissas e o prenderam, o proibiram de ensinar e divulgar seus conhecimentos.

Em pleno século XXI, há no Brasil 11% - onze por cento – da população, acreditando que a Terra é plana. Apenas para ilustrar o quanto uma versão pode ganhar força e se impor ante o conhecimento. No mundo este percentual é de 7%.

Daí a facilidade na propagação das chamadas “teorias da conspiração”. Ou seja, os indivíduos acreditam naquilo que lhes soa melhor aos ouvidos e quanto mais pessoas falam sobre o mesmo tema, da mesma forma, maior é a convicção de estar “certo”, de estar “ao lado da verdade”.

A chamada “guerra cultural” nada mais é que a “guerra de narrativas”, onde grupos fazem a pregação de “versões”, sobre as “verdades olhadas por seus olhos”, carregadas por seus sentimentos e convicções.

Voltando a Nietzsche: “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.”

O ser humano, via de regra, necessita de um líder, um “sumo sacerdote”, alguém dotado de uma “aura mágica”, alguém que lhe dite as “verdades”. Quando alguém consegue falar sobre “tais verdades” para determinados públicos, cujos sentimentos já estão em sintonia com suas palavras, surgem então as “seitas”, as convicções.

No Brasil, o cenário político atual é exatamente este. Uma disputa sobre qual “seita” é detentora da “verdade”. E cada grupo está “convicto” de pertencer ao lado que a detém. Por tudo ser baseado no “senso comum”, na “aparência sensível”, no “conhecimento empírico”, a versão que sustentam é a verdade absoluta.

E quanto mais tais grupos disputarem serem “donos da verdade”, mais acirrados os ânimos, mais ferozes serão os ataques de uns contra os outros, podendo chegar ao ponto de rompimento do tecido social, da ordem legal estabelecida, da destruição das instituições, que buscam manter a coesão da sociedade.

Em todas as sociedades observamos a preguiça nos indivíduos em pensar, pesquisar, buscar o conhecimento. Preferem receber as informações já prontas para serem consumidas, principalmente quando estão mais afinadas aos seus sentimentos. Quando contrariam aquilo que sentem, simplesmente as repudiam, sem se darem ao trabalho de raciocinar sobre os fatos apresentados.

É verdade que hoje dispomos de inúmeras ferramentas de pesquisa na internet, como também as redes sociais. E a IA – Inteligência Artificial, pode ser uma grande aliada. Porém, da forma como estão programados os algoritmos, somos sempre direcionados aos grupos ou pessoas com afinidades de pensamento. Da mesma forma, os motores de buscas (Google, Bing, Yahoo, entre outros), “aprendem” com nossos temas de interesse e sempre nos apresentam resultados com os quais temos mais afinidade.

Ficamos presos nos mesmos grupos e temas, sem conseguirmos olhar além deles, sem conseguirmos avaliar outros pensamentos, outras visões de mundo e de fatos. Num processo de retroalimentação constante, em looping eterno.

E é por isto que surgem os pré-conceitos, a rejeição do outro por ser diferente de mim, por pensar de outra forma, de se “portar” de maneira diversa da minha. E todas as nossas mazelas sociais advém disto: pré-conceitos de cor, credo, nacionalidade, origem, étnico, político, econômico, social. A segmentação produz os “guetos”, aprofundando as divergências e o distanciamento.

 “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar” (Carl Sagan)

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS