ARTIGO: "Cultura do cancelamento e a queima de livros", por Silvio Belbute

 Virou “modinha”, em tempos de redes sociais, algo chama “cultura do cancelamento”.

Porém, tal prática não constitui qualquer novidade na história da humanidade. E não vou falar dos fuzilamentos atrás da “Cortina de Ferro”, na antiga URSS (União Soviética), ou em Cuba, ou na China.

Por volta de 640 d.C. a maior biblioteca do mundo antigo é incendiada, totalmente destruída e todo o conhecimento acumulado se perde para sempre. Há diversas versões sobre o fato, a mais comum diz ter sido ordenada pelo califa Rashidun Omar ibn al-Khattab, após a conquista do Egito.

Antes disto, na China, o rei Zheng da Dinastia Chin, manda queimar os livros, por volta de 213 a.C. Mao Tse Tung repetiu o ato durante a Revolução Cultural, em 1966, incluindo o enforcamento público de professores.

Durante a Inquisição, promovida pela Igreja Católica, milhões de livros e milhares de pessoas foram queimada, em fogueiras públicas, nos anos de 1231 até 1542.


Em 1933, os nazistas promoveram o Bücherverbrennung (queima de livros), num ato de “purificação pelo fogo”.

O Departamento de Estado dos EUA acionou a justiça americana que ordenou a queima de livros sobre o orgasmo em 1954.

Durante a ditadura Vargas, no Brasil, milhares de livros foram queimados, a partir de 1937.

Enfim, são inúmeros exemplos, em todas as épocas, em todos os países.

E qual a relação entre queima de livros e a “cultura do cancelamento”?

Intolerância. Incapacidade de lidar com visões de mundo distintas das nossas. Então, queimar um livro, é “cancelar” uma ideia, “cancelar” um autor, “cancelar” uma pessoa por pensar diferente de um determinado grupo.

A cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann, criou em 1977 a teoria da “Espiral do Silêncio”. No modelo proposto por Neumann, as pessoas omitem suas opiniões, quando conflitantes a determinado grupo, por medo do isolamento, das críticas e de linchamento público. A partir desta teoria (em prática nas redes sociais), é que foram geradas ações de grupos, tais como “lugar de fala” e a própria “cultura do cancelamento”.

O “lugar de fala” visa isolar indivíduos, inibindo suas opiniões, usando como justificativa não pertencerem a determinado grupo. Assim, homens são impedidos ou censurados ao tratarem de temas “exclusivos” para mulheres; brancos são impedidos ou censurados de falarem sobre negros; pessoas com “ideias de direita” são impedidas ou censuradas ao falarem sobre “ideias de esquerda” e vice versa. E por aí vai. Desta forma, apenas os grupos cujos pensamentos e ideias são iguais podem falar entre si. Aqueles que ousam ultrapassar este limite imposto, são vítimas do “cancelamento”.

A intolerância vem do desconhecimento, da ignorância (no sentido de não saber), do medo de deixar de pertencer e ser aceito por determinados grupos. E esta intolerância individual ganha força quando somada a de outros indivíduos de um grupo, que passa a ter um “comportamento de manada”, estimulado por palavras de ordem, gerando violências física, emocional ou psicológica.

Um exemplo clássico é a violência entre torcidas de times de futebol. Individualmente, dificilmente um torcedor é capaz de perpetrar atos de agressão a outro. Porém, em massa, estimulados, os grupos de torcedores travam verdadeiras batalhas campais. E são inúmeros os casos de mortes nestes embates.

É o “cancelamento” do outro, por não ser como eu, por não pensar como eu, por não torcer para o mesmo time.

A “cultura do cancelamento”, fruto da “Espiral do silêncio”, nada mais é que o assassinato virtual, cometido por uma horda de radicais, incapazes de aceitar o contraditório e por serem incapazes de elaborar argumentos válidos para contrapor uma ideia.

Então, assim como os livros, tais pessoas são “queimadas” na fogueira pública virtual.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS


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