ARTIGO: "Competitividade x Cooperatividade", por Silvio Belbute

Reza a lenda que, quando tinha seis anos de idade, em visita a uma tia, me recusei a almoçar usando um prato diferente das outras crianças que estavam a mesa. E pacientemente esperei que uma delas terminasse, para poder usar seu prato.

Nunca gostei de competir, de ultrapassar alguém, fosse qual fosse o motivo ou objetivo. Sempre gostei mais de fazer parte, de colaborar, de fazer junto. Mesmo antes de conhecer o sentido da cooperação. Sempre acreditei na conquista pelo mérito, atingir resultados pelo esforço, com trabalho em equipe.

Não gosto de pensar em “derrotar” o outro, penso sempre em construir com o outro. O que me move é o desafio, o que me alimenta é a paixão e o que me entusiasma é o trabalho para chegar ao objetivo. Importa o processo. O resultado é simples consequência.

A competitividade, para mim, é desestimulante. Gosto de compartilhar, de colaborar, de cooperar.

PxHere - CC0 Domínio público


Na minha carreira como executivo, sempre estimulei a colaboração, o trabalho em equipe, atingir metas globais, onde o grupo todo ganhasse. Em uma das empresas de tecnologia onde trabalhei como diretor de vendas e marketing, os setores de vendas e assistência técnica eram separados. E isto gerava muito ruido, muitos conflitos, causando resultados negativos junto aos clientes. Em reunião com o presidente da empresa, solicitei que a área técnica fosse incorporada ao setor de vendas, buscando afinar e sintonizar as ações e linguagens. Minha proposta foi aceita. Reuni as equipes, apresentei as vantagens de trabalharmos em conjunto. O resultado foi a queda acentuada nas reclamações dos clientes e substancial elevação das vendas. Vendedores passaram a conhecer melhor os produtos, técnicos aprenderam como melhor atender aos clientes. Todos ganharam.

Mesmo na escola, nas aulas de educação física, quando os professores faziam as seletivas para montar equipes de atletismo, eu detestava. Preferia os jogos de vôlei, onde formávamos times.

Quando penso em competição, me vem à mente a máxima do Barão de Coubertin: "O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade." Também lembro do fundador do cooperativismo no Brasil, Theodor Amstad, quando nos ensina: “Pois se uma grande pedra se atravessa no caminho e 20 pessoas querem passar, não o conseguirão se um por um a procuram remover individualmente. Mas se as 20 pessoas se unem e fazem força ao mesmo tempo, sob a orientação de um deles, conseguirão solidariamente afastar a pedra e abrir o caminho para todos.”

A competição é contraditória à vida. Nascemos pela ação colaborativa de pares. Crescemos em meio a comunidades; aprendemos pelo esforço de muitos. O indivíduo realiza-se na comunidade, no meio social, na sociedade. Ninguém vence obstáculos sozinho, como bem disse John Doone: “nenhum homem é uma ilha”.

Torna-se cada dia mais evidente a marca do século XXI: colaboracionismo, cooperativismo. O individualismo e a competição geram os conflitos, ao passo que as ações conjuntas promovem os consensos e estimulam ambientes criativos e produtivos.

Silvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
MTb 0018790/RS

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