Voto


Alceu de Deus Collares - deputado estadual, federal e primeiro prefeito e governador negro da história do RS, tinha um refrão, repetido à exaustão:

- Teu voto é tua única arma, bota teu voto na mão.

Muitos anos antes, em uma de suas polêmicas declarações, ainda durante o regime militar, Pelé disse que "o brasileiro não sabe votar".

Ambos tem razão: o voto é de fato a única arma do cidadão, de forma a mudar a política, mudar o "status quo". E ao mesmo tempo, o brasileiro não sabe usar desta arma em seu favor ou de sua comunidade.

Em pleno século XXI, as pessoas ainda mantém distância da política, repetindo um ultrapassado mantra, de que a política é corrupta. Porém, estes mesmos não se dão ao trabalho de pesquisar os candidatos, saber de sua vida pregressa, buscar informações sobre o pensamento dos candidatos, para além das propagandas eleitorais - verdadeiras fábricas de fake news, onde tudo se promete para conquistar o poder, para depois arranjar milhares de desculpas furadas para não cumprí-las.

E o eleitor se deixa enganar pelos discursos fáceis, segue acreditando em salvadores da pátria, cujos compromissos desde sempre são apenas privados, pessoais, longe dos ideias da coletividade.

O eleitor segue votando nas "pessoas", num sistema onde não há candidaturas avulsas, sem filiação partidária; onde os candidatos seguem os programas e ideologias partidárias, caso contrário serão defenestrados das siglas as quais pertencem.

Muito eleitores ainda vendem sua arma, sua única arma para mudanças, também por questões e motivações pessoais: por um botijão de gás, por uma vaga para um filho, pela limpeza de um terreno de sua propriedade. São, assim, tão corruptos quanto aqueles que elegem.

Amanhã mais de 150 milhões de brasileiros irão às urnas e, novamente, farão mal uso de suas armas sagradas, mantendo tudo que condenam exatamente como está.
Sim, o voto é nossa única arma, mas ainda não sabemos usá-la.

Independente dos resultados, independente se esquerda, direita ou centro vençam, tudo seguirá exatamente como está.

Quando o brasileiro aprender a buscar informações, se der ao trabalho de ler os manifestos partidários, entender o pensamento dos políticos, talvez aí atinjam a maturidade e passem a usar o voto como a arma capaz de promover as mudanças que tanto ansiamos e necessitamos.

Sílvio Luiz Belbute
Jornalista e Sociólogo