Moro acertou um tiro de 22 no presidente


O ex-ministro e ex-juiz usou de estratégia bem pensada e planejada, alvejando com precisão o alvo.

Moro não se incriminaria. Caso acusasse ao presidente de ter cometido crime, estaria acusando a si próprio. Deixou a questão em aberto, provocou a reação de Bolsonaro, que confirmou o teor das conversas.

Moro alvejou o presidente com um tiro de calibre 22. Não foi letal, mas causou um estrago enorme.

O calibre 22 tem baixa capacidade de letalidade, dependendo onte atinja o alvo. Porém, causa um grande estrago, pois obriga o cirurgião a fazer uma enorme incisão para buscar os fragmentos do projetil.

Os cirugiões serão a PGR e o STF. Terão de abrir o corpo para buscar os fragmentos e ai está o estrago. É uma cirurgia que dura muito tempo e sua recuperção causa muita dor.

Os objetivos na insistência de Bolsonaro na troca do comando da Policia Federal são claros: sendo paranóico e sofrendo de delirio persecutório, deseja ter acesso aos relatórios de inteligência da PF; quer interlocução direta e subordinação absoluta, inclusive para solicitar investigações sobre seus desafetos e inimigos políticos; no caso do Rio de Janeiro, monitorar e evitar que investigações cheguem aos seus filhos, ao mesmo tempo em que deseja investigar o governador (antigo aliado), buscando armas para combatê-lo em um possível embate político em 2022.

Produzir dossiês contra inimigos e mesmo aliados, para mantê-los em rédeas curtas, não é novidade. Quem leu “Assassinato de Reputações~, de Romeu Tuma Jr, sabe muito bem que no governo Lulla, Tarso Genro – então como seu ministro da justiça – havia montado uma central de produção de dossiês nos porões do Palácio do Planalto. Está tudo lá. E ninguém do partido dos trabalhadores, nem sequer Lulla, se manifestou sobre o livro de Tuma Jr o sequer o interpelou judicialmente. Quem cala, consente.

Em nossa republiqueta de bananas, os governantes utilizam das instituições republicanas para seus fins pessoais. No período militar no Brasil, era instrumento de governo; desde a redemocratização, passou a ser instrumento de poder.
Talvez um dia amanheceremos cidadãos de verdade, e como tal, respeitaremos a independência e autonomia das instituições de Estado, elegendo governantes com projetos de país, focados em atuações executivas, promovendo e estimulando o desenvolvimento nacional. 

Policias (federal, estaduais), corporações militares (Forças Armadas inclusive), Banco Central, entre outras, são órgãos de Estado e, para bem protegerem nossa democracia, não devem se confundir com órgãos de governo (ministérios, secretarias e suas subordinações).

Moro representa o verdadeiro espírito republicano, Bolsonaro representa o verdeiro espírito republiqueta. 
Não há muitas distinções entre Bolsonaro e Hugo Chavez, para ficar apenas neste exemplo. Na Venezuela já sabemos o que aconteceu e acontece. Por aqui ainda temos ferramentas de pesos e contrapesos.

O tiro de Moro será ainda mais dolorido e de recuparação mais lenta e complicada que a facada eleitoral.

Sílvio Luiz Belbute
Jornalista e sociólogo
Mtb 0018790/RS