O brasileiro quer um herói para chamar de seu

Em meio a tanta mediocridade, acostumados ao “bastantão”, quando alguém faz o seu trabalho com esmero e dedicação, logo vira ídolo. Principalmente quando a massa se sente engana e traída por aqueles a quem haviam elevado à categoria de herói.

Mas o posto de herói é assim mesmo: até o Capitão América pisou na bola ao defender seu amigo, apenas por ser seu amigo, não importando o erro que cometera – conscientemente ou não.

Quando contratas uma diarista para a faxina quinzenal mais pesada, estás acostumado com aquelas que fazem o “basicão”.  Quando contratas alguém que limpa atrás da geladeira, do freezer, do fogão, tira todos os livros das estantes e os limpa, deixa as vidraças e janelas brilhando, vais considera-la uma heroína?

Quando contratas aquele pedreiro para a reforma do banheiro e todos os dias, ao final da jornada, deixa tudo limpo e impecável, vais considera-lo um herói, apenas porque os demais não o fazem?

Pois é assim mesmo com Sérgio Fernando Moro. Um juiz competente, que realizou suas tarefas com esmero. PONTO. Herói? Claro que não. Um ser mortal, igual a todos nós, com suas qualidades e defeitos. Quem sabe em sua vida privada se mostre mais humano? Será que tem chulé? Peida embaixo das cobertas? Mastiga de boca aberta?

Quando Joaquim Barbosa presidia o STF e relatava a Ação Penal 470 – mais conhecida como “julgamento do mensalão” – e condenou José Dirceu, José Genuino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha e outros vinte acusados, também foi considerado “herói”, ao ponto de a “massa” indica-lo para presidente da República. Onde está Barbosa hoje?

No Museu do Ipiranga temos aquele famoso quadro, com Dom Pedro I “às margens do Ipiranga, espada em riste, bradando independência ou morte”; tivemos o “pai dos podres”, na figura do rico estancieiro Getúlio Dornelles Vargas; Jânio Quadros com seu “varre, varra vassourinha”, prometendo varrer a corrupção do país (isto não te lembra algo recente?); com a redemocratização, logo temos uma versão modernizada de Jânio, personificada em Collor de Melo, o “caçador de marajás”; ai vem Lulla, prometendo acabar com a fome e seu famigerado programa “Fome Zero”, cujo resultado foi exatamente este: zero; agora Bolsonaro, com o mesmo discurso simplista de Jânio e Collor, para delírio da claque iludida; e Moro – herói para muitos, vilão para tantos outros. Até jogadores de futebol e participantes de “reality show” viram heróis, para as mentes mais tacanhas.

Nenhum deles foi ou é herói. A história mostra exatamente a face de todos e mostrará a face de outros. Inexoravelmente. 

Mas infelizmente ainda estamos na primeira infância como nação. Queremos um “pai” que nos mostre o caminho; um salvador da pátria que faça tudo sozinho para nosso deleite; um herói que resgate nossa autoestima como país e como povo. Buscamos sempre no outro, em alguém. Jamais olhamos para nós mesmos para evoluirmos como povo, valorizando ideias e projetos de país de acordo aos nossos princípios e sonhos.

O brasileiro ainda quer um herói para chamar de seu.