Entrevista Paulo Moura - Cientista Político

Entrevista com o cientista político Paulo Moura, produtor e diretor do documentário "Impeachment: o Brasil nas ruas". Conversamos sobre a prisão de Lula, o enfraquecimento da esquerda, fortalecimento do liberalismo/conservadorismo e eleições 2018.



BB- Aprontando muitas em São Paulo?

PM- Tô com projeto de outro filme. Meu documentário sobre o impeachment entrou na programação do canal Now da Net. E eu estou voltando, na verdade, para este mercado do audio visual, onde eu trabalhei lá no inicio dos anos 90, final dos anos 80. Então, com este documentário, resolvi voltar e este mercado, produzindo conteúdos liberais, difundindo as nossas idéias com esta linguagem.

BB- Tens uma história privilegiada, porque trabalhasses na implantação da TV do Trabalhador, no ABC.

PM- Exatamente, eu trabalhei por três anos lá, quando a produtora estava sendo montada e preparada para fazer a campanha do Lula contra o Collor. Eu terminei não fazendo a campanha, porque houve uma disputa política, sobre quem controlaria a campanha. Eu era só cinegrafista naquela época, a jornalista que comandava a produtora perdeu a briga de cachorro grande, entrou outra equipe e logo depois eu me afastei deles, pelas razões que eu sempre digo: eu percebi que eles já deviavam dinheiro do sindicato naquela época, vi que não tinha mais nada a ver com eles, com o que defendiam, que não era nada do que diziam ser. Então fiz a trajetória de afastamento da esquerda, voltei para o sul, fiz meu mestrado e doutorado e me tornei um critico do PT.

BB- E já naquela época tu percebia tudo que veio acontecer agora?

PM- De fato, eu vi o monstro em fase larva. 80% das prefeituras não tem o orçamento que aqueles 
sindicatos do ABC e Diadema tem. É uma organização rica e sem controle nenhum, nunca prestaram
contas a ninguém, então é muito fácil desviar dinheiro de sindicato. Eu percebi, já naquela época que isto acontecia. Pensava: se já fazem isto, aqui, com o dinheiro do trabalhador que dizem defender, imagina o que farão quando assumirem o poder. O que se confirmou.

BB- É só uma questão de escala, avançaram num bolo maior.

PM- Bolo e olho grande...

BB- Como é que fica aquela história do "rouba para a causa e não rouba para si"?

PM- Isto é mais uma falácia. Quando tu vê o Lula e o Dirceu, o número 1 e o número 2 da ORCRIM, enriquecendo pessoalmente, essa conversa de "rouba para a causa" é para boi dormir, para os "militontos", para essa gente que tem uma fé religiosa inexplicável neles, apesar de tudo que se tem visto na imprensa, das investigações, da Lava-Jato, mostrando que o negócio deles era poder e enriquecimento pessoal.

BB- Falando em esquerda, a esquerda no Brasil especialmente, está mais para uma seita religiosa que para uma concepção ideológica/política.

PM- É, neste momento que eles perderam o poder e que estão perdendo apoio popular, este discurso - vamos dizer assim, religioso, que é proferido e repetido como um dogma inquestionável - ele cumpre uma única finalidade: evitar perder mais gente. Porque qualquer pessoa que tenha algum grau de racionalidade, de capacidade de observar a realidade, tirar conclusões próprias, não teria como continuar seguindo estes caras, porque eles são uma fraude. E o que vemos é exatamente isto: este discurso é proferido para pessoas sem capacidade crítica. Na tentativa de estancar a sangria e manter uma tropa mobilizada, capaz de fazer que mantenham alguma bancada no congresso, nas assembleias legislativas, para tentar - na medida que o tempo passar - sobreviver a estas dificuldades que estão enfrentando.

BB- Bolsonaro é um populista ao estilo Lula?

PM- Ele tem traços de liderança populista, mas é alguém que tem enfrentado estes caras e que consegue se fazer entender pela população mais simples. Razão pela qual ele conquistou o espaço que tem na eleição. Eu diria que, no campo de batalha, ele está do nosso lado, do lado daqueles que estão lutando para mudar o país.

BB- E a não vinda dele ao Fórum da Liberdade, que é o maior evento do liberalismo e conservadorismo no país, isto não afeta um pouco, não diz um pouco do temor da realidade dele?

PM- Na verdade há um setor do movimento liberal que é crítico ao Bolsonaro, em função dos discursos e da postura dele em votações na Câmara e posições que ele defendeu, que não são liberais, pelo contrário. Há uma dificuldade destas pessoas em aceitarem que ele esteja migrando para o campo liberal. Mas houve um fato que as pessoas aqui não sabem, que impediu que o economista Paulo Guedes que iria das uma palestra aqui: faleceu a mãe do Paulo Guedes. Na última hora ele foi substituído daquela mesa que antecedeu a abertura. E até onde eu ouvi dizer, o Bolsonaro teria ido ao velório. Ele foi convidado, o nome dele estava ali como convidado, não havia confirmado, mas ocorreu este evento e tem de conferir se não foi o motivador da sua não vinda.

BB- No fim de semana, nós todos que lutamos contra a ORCRIM e todas as suas ramificações e metástases, vibramos muito e comemoramos muito a prisão do Lula. É triste para um país ter de 
comemorar a prisão de um ex-presidente, não por ter sido um ex-presidente, mas por que afera a instituição presidência da República. Na verdade ele se valeu da presidência para roubar. O que acontece com o país daqui para a frente, nós estamos já maduros, nossa democracia já amadureceu?

PM- Não amadureceu, mas está amadurecendo. Eu confesso que não fiquei triste. Nenhum pouco. Acho extremamente positivo, vejo com otimismo, o fato de que tenha sido possível prendê-lo. Eu acho que foi humilhante, mais um teatro para a própria militância. Foi um espetáculo deprimente do ponto de vista de imagem pública, para eles. Uma coisa ridícula, humilhante. E na última hora, quando a Polícia Federal intimou e ameaçou dar uma prisão preventiva, porque será caracterizada resistência à prisão, ele rapidinho saiu correndo e se entregou. Ele sabia que a policia federal não estava ali para brincadeira e que tinha um contingente preparado para entrar e buscar ele. E isto é um bom sinal, significa que ele ajoelhou perante a lei. Apesar de todos os escândalos, apesar de tudo isto que a gente vê, que muitos ficam desesperançados, gradativamente a gente abre a grande ocular e olha para um grane período histórico e vê tudo que já aconteceu...Lula é o 115o preso da Lava-Jato. E entre estes presos estão empresários, políticos, funcionários públicos, gente graúda, que em outros momentos da nossa história jamais estariam em cana. 
Óbvio que a nossa democracia não está madura, há muito que aperfeiçoar, há muito o que fazer, a 
sociedade precisa ficar atenta, mobilizada, cobrando, pressionando, apoiando a Lava-Jato.

BB- Tem uma parcela clamando por intervenção...

PM- ...os milicos não querem. Eu tenho interlocução com o meio militar e eles estão agindo na política no estrito limite da lei. Se pronunciam dentro dos limites constitucionais, fazendo uma pressão que não ultrapassa o regulamento militar e a legislação...

BB-...a maioria não entende isto...

PM-...sim, ficam cobrando coisas que eles não podem fazer, porque estariam descumprindo a lei. E 
também estão lançando candidatos, não é só o Bolsonaro. Têm vários militares da reserva se lançando candidatos para deputados federais, estaduais, governadores em diversos estados. Então eles estão escolhendo o caminho da democracia, para mim eu acho isto muito saudável. Tenho um respeito enorme pelas forças armadas e me congratulo por esta posição institucional respeitosa e cuidados que eles tem tido com as instituições democráticas. 

BB- Acreditas numa grande mudança no congresso, numa grande renovação, com alternância, com novos nomes?

PM- Grande na quantidade não. Porque a legislação que foi aprovada e o fundo eleitoral, as regras que foram criadas por estes que estão ai, estão moldadas para que eles sobrevivam. Mas eu acredito na eleição de uma bancada liberal, de uns 20 ou 30 deputados, que poderão pautar o comportamento de uma bancada conservadora mais ampla, ligadas as igrejas, uma série de segmentos conservadores da sociedade, mas que não tem uma bússola, não tem um norte e muitas vezes até se deixa pautar pela esquerda. Mas é preciso chamar a atenção: muitas vezes falam em renovação, observando que velhos 
políticos saíram e entraram novos, sem perceber que muitos dos que entram são filhos de políticos, são cabos eleitorais ou chefe de gabinete de um deputado que foi para um outro cargo. 

BB- O nome é novo, mas a linha política é a mesma...

PM-...mas ele é herdeiro de uma máfia política já existente. Desta vez não. As pessoas que foram para a rua defender o impeachment, muitas delas estão se lançando como candidatas. As pessoas que defendem o ideário liberal, estão migrando do debate teórico dos livros, dos estudos, também para a política prática, dando a cara a tapas. Eu acho que o resultado disto será um congresso nacional diferente. Uma bancada liberal aguerrida, com capacidade de pautar, com sustentação social, mobilizada, e isto fará uma grande diferença. Os conservadores tem uma questão, com a qual eu concordo, apesar de ser mais liberal que conservador, que é assim: a boa mudança é a mudança lenta. Não é abrupta, não é por ruptura, é aquela que vai se consolidando nas leis, nas instituições e no comportamento da sociedade. 

BB- Que é o fundamento do conservadorismo...é a mudança perene...

PM- Por isto que não adianta dar um golpe militar...os militares tomaram o poder em 1964 e a esquerda voltou depois. Por quê? Porque a esquerda foi lutar no campo das ideias: foi para as universidades, foi para a mídia, foi para as igrejas, na área cultural, num processo de infiltração. Formou duas gerações de esquerdistas e estes caras hoje estão por ai: dentro das empresas de mídia, dando aula nas universidades, estão nos teatros, nas salas de aula. Então o nosso movimento tem de fazer o mesmo, no sentido inverso: temos que ganhar deles no terreno das idéias, ocupar os espaços e convencer a sociedade que o que eles defendem é coisa do demônio e que nós estamos defendendo liberdade, valores que são positivos para a sociedade. 

BB- Me fala de Flávio Rocha, tu acha que ele é o novo nesta eleição? Ele pode ser o desequilibrador da história?

PM- É muito cedo para dizer. Ele é uma das novidades: um empresário, com discurso liberal/conservador assumido, combativo, um discurso contundente, capacidade de liderança. Ações práticas, como empresário, na área social lá no nordeste, onde as empresas dele tem as fábricas, tem a rede de lojas Riachuelo no país inteiro, mas produção têxtil da empesa é no nordeste e tem projetos lá, de promoção social muito interessantes. Eu procuro me fixar menos nos nomes e mais no processo. Tem o Flávio Rocha, o Amoedo, o próprio Bolsonaro assessorado por liberais. Um dado muito interessante: virou moda ser liberal. Até os esquerdistas light estão sentindo que a sociedade tá comprando as ideias do liberalismo.

BB- Aliás, lá nos anos 2008, tu já falavas do famoso pêndulo, movimento pendular. Agora estamos naquele ponto, voltando mais para a direita.

PM- Mais para a direita, exatamente, porque houve um desgaste da esquerda no exercício do poder.