ORGULHO PARA VENDER INGRESSO - por Guilherme Macalossi


Esses dias eu vi na TV, e eu tenho cada vez assistido menos TV, um alguém qualquer recomendando aos brasileiros que reavivassem seus sentimentos de nacionalidade. Samuel Johnson, certa feita, afirmou que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Não que ao entoar o hino ou estender a nossa bandeira, tornemo-nos as figuras as quais o escritor inglês se referia, mas o fato é que o conceito de “orgulho nacional”, independente da nação, é uma ficção, usada quase sempre para os piores propósitos das piores pessoas. Dessa vez é para ajudar a publicidade da FIFA.

Só podemos ter orgulho de coisas que fizemos voluntariamente. Ser brasileiro não é uma delas. Somos todos espermatozóides tupiniquins. Somos todos óvulos tupinambás. Não por escolha, mas por acaso. Não sei vocês, mas eu jamais optaria por ser conterrâneo da Regina Casé. Talvez você também jamais optasse por ser conterrâneo do Guilherme Macalossi.

Mas por que devemos forçar, e até certo grau fingir, um falso senso pátrio estimulado por jogos de futebol? É que é politicamente bonitinho. É que é vendável. Pelo menos mais politicamente bonitinho e vendável do que criar culturalmente um senso de orgulho próprio, não da massa que habita o país, mas das unidades individuais que a compõe.

Se você quer se orgulhar de algo, orgulhe-se de quem você é e das atitudes que tomou ao longo da vida, não como “brasileiro”, mas como pessoa inserida em uma família e em uma comunidade. Os americanos são patriotas não por um senso de americanidade, e sim porque cada um deles se identifica com os valores que embasaram as ações dos mais diversos indivíduos ao longo de sua história. Se há um sentimento unitário de uma sociedade com o qual podemos nos identificar, inspirar e orgulhar, só pode ser esse.

O Brasil, entretanto, está condicionado a idealizações homogêneas de comportamento, formuladas em reuniões acadêmicas. A abertura da Copa foi apenas o retrato de um país inventado pela antropologia rasteira, absolutamente distante da maioria de seus habitantes. Nosso patriotismo é feito na medida para fazer as vontades do Coronel da vez. Eu não sou aqueles brócolis ambulantes. Eu não sou aquele povo cantado maracatu. Eu também não sou aquela gente que gosta da Claudia Leite.

Publicado no Jornal Informante e em seu perfil no Facebook: http://www.facebook.com/guilherme.macalossi