A saída é mesmo o aeroporto?

Dizem que o maestro Tom Jobim declarou certa ocasião que "a melhor saída do Brasil é o aeroporto do Galeão".
Ele mesmo nunca confirmou, nem desmentiu. O certo é que viveu algum tempo fora do país e mesmo antes, já havia atingido o sucesso lá fora.

Os tempos eram outros, a tal frase atribuída a ele, teria sido formulada pelos anos 90.

Quase 25 anos depois, o que mudou?

Nesta semana tive oportunidade de conversar com um casal jovem - ele 35 anos, ela 30. Ambos advogados. Ele doutor em direito e professor universitário. Confesso: a melancolia tomou conta de mim. Experimentei profundo sentimento de tristeza.

Conversávamos sobre as questões nacionais e perguntei como viam a situação atual do país. A primeira resposta foi um soco no estômago:

- Decidimos não ter filhos. Não vemos perspectivas promissoras para o Brasil. Não vemos como o país poderá mudar, se a sociedade não mudar.

Passada minha perplexidade, reforcei a pergunta:

- Vocês decidiram não ter filhos porque não veem perspectivas no futuro do país?

E ambos me responderam, também perguntando:

- Mas o que tem de bom? Um tempo atrás podíamos falar que o clima era bom. Agora o calor é insuportável e o frio é extremo. Então o que sobra?

Ao longo do bate-papo, relataram terem traçado um plano: em alguns anos ele terminaria a docência, juntariam suas economias, venderiam seus bens e se mudariam para o Canada. E mesmo lá não exercendo as profissões que escolheram, pelo menos poderiam viver com tranquilidade, segurança, confiança nas leis e nas instituições, com a certeza de receber de volta o que pagarão em impostos.

- Aqui pagamos impostos e o que temos em retorno? Eu pago duas vezes pela saúde: pago na contribuição compulsória ao INSS e pago plano de saúde privado. Pago 2 vezes para andar de carro: no IPVA e nos pedágios. Onde está a justiça? E os políticos ainda roubam!

E o caso deles não é isolado.

- Levei a documentação para meu contador fazer o imposto de renda e ele pediu que procurássemos outros profissional para o ano que vem, pois ele vai se aposentar e com a mulher vai sair do país. Já mandou os dois filhos para a Alemanha, onde estudam e trabalham.

Eu ainda sou teimoso. Ou obstinado. Sei lá...mas acho que podemos evoluir para uma nação. Tenho esperanças em novos tempos. Posso ser um sonhador, um romântico. Mas não estou de braços cruzados e não faço apenas "ativismo virtual". E, de alguma forma, preparo meus filhos para também lutarem por um futuro melhor.

Ainda acredito que a saída não é o aeroporto.