Saúde: preço ou valor?


É claro que, para o sequestrador, a vida tem preço; para a família das vitimas, tem valor.

Nem tudo que tem valor, tem preço. E nem tudo que tem preço, tem valor.

Droga tem preço, mas qual valor mesmo?

Pois é. Começo assim para poder demarcar bem o território, definir bem a questão, deixar bem claro que: para o poder público, para entidades que lidam com saúde, alguns médicos, para a maioria dos buRRocratas, vida tem preço, saúde tem preço.

Para o buRRocrata, que elabora as regras de funcionamento do poder público e da maioria das entidades, o “guardião do templo sagrado do processo”, importa: rito, formulário, tabela, planilha, relatório, medição, estatística. Para o buRRcrata, paciente é número, é dado, não é humano. O buRRocrata tem o desejo do controle absoluto de tudo, como um semi-deus, dono do raio e do trovão da “verdade”. Da verdade dele, claro.

Observem nas entrevistas, nas matérias jornalísticas, quando o tema é saúde, logo vem o termo "custo". "O custo da saúde..."

Você já ouviu falar em "investimento em saúde"? Claro, nas campanhas eleitorais. E depois?

Na prática a coisa funciona assim, se você não tem plano privado:

Você enfarta e é atendido na emergência, urgência. Beleza. Se for no Instituto de Cardiologia, tenha certeza: você acertou a Quina.

Depois, você melhora e recebe alta. Mas o médico que te atende diz que você precisa de acompanhamento, que nos próximos 6 meses as consultas devem ser mensais. Ai você pensa: "Nossa, primeiro mundo". E é! No papel. Porque como o "sistema de saúde" é municipalizado, TUDO tem que passar pela "Unidade de Saúde" (interessante este temo, noutro artigo falarei sobre isto).

Então você acorda de madrugada, corre pro posto, disputa ficha, pra consultar com quem? Com o cardiologista? Claro que não idiota. TUDO isto é pra você "consultar" (de fato não é consulta, o médico nem levanta da mesa pra te examinar) com o "clinico geral", pra ele preencher um formulário de requisição de consulta com especialista. Entenderam? O "médico" te atende numa "consulta", não pra te examinar, mas pra preencher um formulário. - Mas o preço é o mesmo da consulta? Ou serviço administrativo é mais barato e o médico informa isto pro buRRocrata? - E ai você leva este formulário, devidamente preenchido pelo "médico", com carimbo dele, para a funcionária do posto que vai "encaminhar" o pedido de consulta. Mas esta ainda não é a melhor parte. Pensa que a consulta com o especialista já será agendada e você sairá do posto ou "Unidade de Saúde" com o dia e hora? Capaz. A melhor parte é que agora você vai esperar te ligarem (nossa, que progresso, agora eles ligam), pra te dizerem quando será a consulta. Não, não pergunte quanto tempo levará. Você poderá enfarar de novo e nada do que você fez até agora terá resolvido: a resposta será "uns 3 a 4 meses".

Lembra o que o médico que te deu alta falou? "Acompanhamento mensal"? "Próximos 6 meses"? Ele só não combinou com o buRRocrata.

Veja bem: isto tudo apenas para a PRIMEIRA consulta. Todos os próximos 6 meses você fará tudo de novo todos os meses. E se tiver sorte, o especialista não vai solicitar exames. Se solicitar, bom, ai.....

E as coisas são assim, na visão do buRRocrata, porque tudo tem custo. O atendente do posto (Unidade de Saúde) tem custo, o telefone do posto tem custo, as folhas de papel que o posto utiliza custam, como o papel higiênico dos banheiros do posto também custam. O salário do médico é um custo. O exame tem custo. A manutenção do posto (Unidade de Saúde) tem custo, custa e custa caro, mais caro ainda por ser muitíssimo mal administrada, gerida, por estes buRRocratas de plantão que se encastelam na administração pública. Custo que TODOS nós pagamos.

Só na visão míope do buRRocrata, as verbas que compõem o orçamento, que financia o sistema de saúde, vem de fonte etérea: impostos e taxas. Não vem de pessoas, entendeu a diferença? Por isto, para o buRRocrata, quem paga não somos nós. Portanto, cala a boca e não reclama. Você tem o melhor serviço de saúde pública do mundo. Onde no papel, nas planilhas e dados dos buRRocratas, tudo é perfeito e tudo funciona perfeitamente bem. Se tiver algo errado, é com as pessoas. O Sistema funciona.

Ai, pra você tentar se livrar um pouco - mas é só um pouco, viu? - disto tudo, pague dobrado. É pague duas vezes. Além dos impostos e taxas, pague um plano de saúde. Este é outro terminho que vou abordar no futuro: "plano de saúde". Na verdade o "plano", seja público ou privado, é chegar no teu bolso o mais próximo possível e deixar você longe dos serviços, que "custam muito caro".

Quem sabe se a saúde fosse gestada/gerida por humanistas (sociólogos, filósofos e até médicos), a vida, a saúde passaria a ter valor, ao invés de preço.

Vou abordar este tema nos próximos artigos. Tem muito material para explorar, como a tal “informatização”.

(imagem do site Polenta News)