"Mio cárdio" é grato - ventrículo direito (parte II)

Andar de ambulância ou no caminhão dos bombeiros talvez seja o sonho, pelo menos curiosidade de muitas crianças. Eu confesso que sempre achei interessante ver as caminhonetes correndo, rasgando ruas e avenidas, sirene aberta. Claro que tem muito dos efeitos especiais do cinema nisto tudo; lógico que sempre acompanha uma angústia, por saber que ali dentro uma vida luta pela vida.

No "ventrículo" anterior falei de algumas gratas satisfações. Sigo neste, porque a lista é grande.
Já na saida para meu passeio, matando a curiosidade de infância, enquanto lutava pela vida, chegou a mãe dos meus filhos (Ana Luiza), que me acompanhou por 25 anos, aturando minhas loucuras. Estarmos separados é apenas uma mudança nesta relação, que agora é de profunda amizade e respeito. E mais uma vez ela embarcou numa de minhas loucuras, desta vez literalmente no banco da frente da ambulância.

Creiam, apesar da dor, havia espaço para brincar. E apesar de tudo, digo-lhes: foi muito divertido. Entre gemidos; socorrista falando ao rádio, reportado meu estado, buscando orientação; motorista desviando daqueles que não entedem que uma ambulância não anda correndo para ir ao Shopping...sacode bastante e estar na maca, preso ao cinto de segurança, dá uma sensação de montanha russa ou pelo menos de navio pirata dos parques de diversões.
Drama já é drama por si, desnecessário torná-lo ainda mais pesado. Assim, desde a saida de casa na cadeirinha, deixei meus amigos com um sorriso, dando tchauzinho e curtindo o passeio.
As 12h15 senti a primeira sensação ruim: como aquela dorzinha de um "arroto" preso. Sei a hora porque tinha marcado entrevista com a jornalista Giorgia Claudino, do Hoje em Dia, da Record, para falarmos sobre o Bairro São João. Tinha acabo de escrever um relatório sobre um projeto e também recebido uma noticia ruim na ante-véspera de Natal: grana só na segunda-feira. Tensão, ansiedade, agitação, corre-corre....e um cigarro atrás do outro.
Na segunda tragada do último cigarro senti o peito explodir. Já estava no banheiro, me preparando para sair. Sentei no no sanitário, chamei minha filha, liguei para o 192 e deitei no chão....

Não senti dor ou adormecimento no braço esquerdo, nem dor de cabeça ou enjôo. Apenas aquela terrível dor no peito, iniciando no meio e irradiando para os lados, como se algo estivesse rasgando, querendo sair. Os socorristas não podiam de dar nada para a dor, antes do diagnóstico. E somente quando embarquei na ambulância, às 14h40, aplicaram um pouco de morfina. Mas a dor persistiu.

As 15h dou entrada na emergência do Instituto de Cardiologia. Quem acompanha ou acompanhava o seriado "ER", saibam que qualquer semelhança não é mera coincidência. Se tivesse uma trilha sonora, juro que me sentiria dentro do estúdio, gravando um especial de Natal versão tupiniquim.

Realmente todos os componentes estão ali: a agitação, a rapidez, o profissionalismo...e o mais importante - atenção e carinho. Em nenhum momento me senti o paciente número 544027; sempre fui tratado pelo nome, sempre com cordialidade, sempre com gentileza e sempre com apresentação: "Boa tarde Sr. Silvio, eu sou o Dr João Pedro e vou cuidar do senhor". Este tratamento humano, digno é um diferencial fantástico. É o sentimento de acolhimento, remédio mais poderoso que qualquer ansiolítico.

Fui levado para a sala de preparação, pois o procedimento já estava definido: angioplastia. Avaliar onde estava o entupimento para então definir o próximo passo. A incisão foi pelo pulso, radial, por onde correu o cateter. Diagnóstico: infarto agudo do miocárdio em parede dorso-diafragmático. Então colocaram o "stent" (a molinha) na artéria coronária direita. Foi como tirar a dor literalmente com a mão: alivio imediato, depois de quase 2 horas com o peito ardendo. Estive consciente e lúdico em todos os momentos. Após o cateterismo, pela ação dos remédios e o cansaço de sentir dor, apaguei.

É importante destacar, agradecer e aplaudir de pé estas pessoas importantes, que dão de fato e de verdade importância às pessoas que atendem. Apesar da correria, da agitação, não deixam de nos emprestar um sorriso, um afago, um carinho. Vou pecar por que nesta lista poderão faltar alguns, mas nos citados, todos são e serão para sempre lembrados.

Recebam um abraço apertado, um beijo molhado e minha eterna gratidão: Dr. Henrique Basso Gomes, que fez o cateterismo; Dr. João Pedro Dutra, que me acompanhou na emergência; Dr. Sergio Paulo Campos Lisboa, que me acompanhou depois que sai da emergência. Agradecimento especial também as enfermeiras (os), técnicas (os) de enfermagem e atendentes, sempre cordiais, atenciosos, gentis: Daniela Silva dos Santos, Douglas Carvalho, Denise dos Santos Machado, Fabiola Silva, Cintia Raquel Kronowsky, Lara Crescente e citando estes anjos, abraço também as nutricionistas, cozinheiras e colaboradores pela acolhida. Tenham certeza que vocês fizeram e fazem a diferença, transformando nossa dor em algo suportável, quase imperceptível.

Agora vocês também são meus "AMIGOS DO PEITO", literalmente.