"Mio cárdio" é grato - átrio (parte III)

Então tá. Todo mundo sabe a função dos ventrículos, né? Um empurra o sangue pra um lado, o outro pro outro e assim o sangue vai circulando, coração batendo, vida seguindo. Mas quem é que recebe esse sangue todo dos ventrículos e que faz o jogo dum pro outro? É o "átrio": a câmara central do coração. O lugar mais da casa também. Aula de anatomia à parte, esta última parte coloca tudo no seu devido lugar. Ou melhor: todos no lugar certo - no centro do meu peito, no lugar mais nobre dos aposentos do meu coração. Uns empurram de um lado, outros de outro, e vão me proporcionando as alegrias de tê-los como amigos, em nossa maior e mais fantástica aventura: VIVER.

Agradeço a todos os amigos reais e virtuais, presentes e distantes, pelo carinho, preocupação, pela energia positiva que enviaram. Recebi de todos, senti de cada um.

Porém, desde o inicio venho falando de "gratas satisfações". E não posso deixar de falar de algumas pessoas especiais, fantásticas, por suas atitudes, que é justamente o que nos define, muito além das palavras. Uma delas é a Cristiana Fernandes: mesmo não nos conhecendo pessoalmente, teve a iniciativa de ligar para a Ana Luiza, de quem sabia apenas o nome e local de trabalho, oferecendo mais que solidariedade, sua disponibilidade de cuidar das crianças se fosse necessário.

A solidariedade do colega de emergência, Nelson (não lembro o sobrenome), que passou a noite de Natal comigo. Ele chegou com suspeita de AVC. Perguntou o que tinha acontecido comigo e ao saber, lascou: "ah, tu é iniciante. Já coloquei 6 molinhas e 4 safenas". Me senti reconfortado, podem acreditar.

A acolhida dos colegas de quarto: Rúbi (AVC), Mário Luis (infarto também), "seu" Monteiro (úlcera). A esposa e os filhos do "seu" Monteiro (Marco Aurélio e Fátima). Todos gentis, cordiais, solidários, apesar de suas próprias dores. E mesmo neste curto espaço de tempo em que convivemos, criamos laços, trocamos contatos, para nos reencontrarmos e comemorarmos nossa recuperação.

Ganhamos demais em humildade numa situação destas, em que o mais importante é de fato o que mais importa: a pessoa, o ser, recuperá-lo. Não interessa suas roupas, sua aparência, sua origem.

Quando fui recolhido pelo SAMU, estava apenas com um calção e chinelos. Lá tiraram tudo. Somente no dia seguinte me deram roupas, aquelas verdinhas, de hospital. E foi com este pijamão verde, cara amassada, cheio de hematomas, pelas injeções e acessos que implantaram, levado de cadeira de rodas, que cheguei ao quarto. Como diria minha amiga Carmem Reis: o quadro da dor, na moldura do inferno.

Ninguém perguntou sobre minha origem, sobre minha ancestralidade, sobre minhas atividades. Queriam saber apenas meu nome, o que tinha vivenciado e se estava bem. Um cuidando do outro.

O mundo não seria bem melhor se fossemos sempre assim?

Finalizo esta série de agradecimentos (avisei no inicio que era grande), com a grata satisfação de, mesmo num momento delicado, fazer o que mais gosto: conhecer pessoas, tecer redes. E o coração recheado de alegria, florido de felicidade, por saber estar ocupado por todos vocês.

Fiquem a vontade.

Beijos a quem de beijos, abraços a quem de abraços.