Nem tão semelhantes assim, Mr. Obama

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Barack Hussein Obama esbanjou simpatia em sua primeira visita ao Brasil. Demonstrou conhecer um pouco de nossa história, relacionou cultura a sua infância e a sua mãe, citou o mais cariocas dos compositores (Jorge Ben Jor) e o polêmico Paulo Coelho, para tristeza e rancor da ala conservadora dos nossos letrados, que certamente teriam preferido um Jorge Amado.

Mas o homem estava falando ao povo brasileiro. Deixou claro logo no inicio do seu discurso, transferido da Praça pública para o interior do teatro municipal e para um seleto grupo de convidados. Claro, vermelhos ficaram de fora e no ambiente reservado, não caberiam “foices e martelos” sendo brandidos por alguns convivas (por mais que muitos desejassem).

Obama não é bobo e tratou de buscar semelhanças entre os dois países. Inclusive históricas. Faz parte do ritual. Porém, de fato não são tão semelhantes assim.

Sim, ambos foram colônias. Ambos descobertos quase ao mesmo tempo (diferença de 8 anos, na cronologia oficial). As missões patrocinadas por potências imperiais do século XV, formada por aventureiros, mercenários e prisioneiros.

Nem o continente Norte foi batizado de Colômbia, nem o Sul de Cabralia. O homenageado acabou sendo Vespúcio, o Américo. E ambos descobridores, Colombo e Cabral, terminaram seus dias desacreditados, pobres e doentes.

No mais, as diferenças são gritantes: as 13 colônias empreenderam campanha por sua independência dos Ingleses, guerrearam, derramaram sangue de seus compatriotas, recebendo apoio das tropas francesas, 100 anos antes de nós. Por aqui nenhum tiro disparado, apenas as galhofas históricas sobre alguma resistência dos portugueses e a grande pintura no Museu do Ipiranga com o auto-proclamado imperador com sua espada ao vento, montado em seu corcel branco. Na verdade um grande conchavo entre pai e filho (Dom João e Dom Pedro) para agradar aos senhores feudais tupiniquins e manter o “status quo”. Quanta simbologia.

Enquanto lá trataram de redigir uma Constituição Republicana, instaurando a democracia desde o nascedouro da nação, aqui mergulhamos numa monarquia absolutista, com plenos poderes ao imperador. E de quebra, expulsamos holandeses e franceses de nosso território.

A insurgência das colônias inspirou os franceses a decapitarem seus reis, instaurando uma república constitucional, fazendo surgir os ventos democráticos no antigo continente. Para não fugir ao destino, tal vento chegou por aqui como uma brisa e logo foi dissipado, decapitando e esquartejando quem se atrevia a soprá-lo. Mais uma vez cheio de intrigas e conchavos, traições e vilanias.

E mais uma vez, com 100 anos de atraso é que nossa república federalista é proclama. Notem bem: “proclamada” não conquistada. No seu ventre guardava todos os requisitos de um estado ditatorial, desejo acalentado por Teodoro da Fonseca e seus seguidores, que não se tornou realidade graças as resistências de Benjamin Constant.

Enquanto a Constituição Americana completa mais de 200 anos, a nossa Constituição Cidadã mal chegou aos 21 anos e mesmo assim com muitos artigos e sessões a serem regulamentadas. E logo vem uma pregação por uma nova.

As questões culturais no distanciam sobremaneira: continuamos a receber visitantes com antiquada e démodé “revista” às tropas; os submetemos a overdose de sessões de capoeira, como se fosse nossa única representação cultural. E, claro, dê-lhe favela, nosso maior símbolo de incompetência. Queremos nos mostrar altaneiros, soberanos, mas fazemos questão de apresentar nossas mazelas, na velha atitude do coitadismo, que busca o assistencialismo. “Me dá um dinheirinho ai, tio”.

Obrigado por sua simpatia e por seu interesse em nossas commodities, Mr. Obama. Mas não somos tão semelhantes assim. Ainda não.