Disjunção Social e Política

disjuncaosocial

“Um homem que se curva não endireita os outros” (Aristóteles)

Não, não tratarei da lógica matemática que o termo inspira. Não se trata de “falso” ou “verdadeiro”, apesar de também poder se aplicar ao momento atual.

Trata-se, isto sim, do colossal abismo aberto em nossa sociedade. Aqui entenda-se “disjunção” como separação, descolamento, um verdadeiro “apartheid” entre o mundo real e a esfera política.

O Estado ganhou vida própria e distancia-se cada dia mais daqueles que deveria abranger, apesar de sua paquidérmica estrutura ser sustentada pelos cidadãos (se é que podem assim ser chamados).

Max Webber já nos havia falado sobre a era dos políticos carismáticos, no inicio do século passado, diferenciando-os dos políticos vocacionados. E contraditoriamente, a sociedade vítima deste Estado continua a procurar líderes, deuses, homens sagrados que tenham a iluminação divina para a salvação coletiva.

Em um tempo ainda havia a paixão, subsidiada por convicções, lastreadas em ideologias. Ideologias em nada lógicas, movidas pelos desejos de construir uma sociedade justa e, paradoxalmente, igualitária.

Morreram todas de morte matada. Fulminadas pelas vaidades personalistas, que as utilizaram e as utilizam, as ideologias, apenas como pano de fundo de seus verdadeiros anseios: o poder.

Mas o que é, enfim, o “poder”? Estará ligado as capacidades supremas ou expertises incontestes de quem ascendeu aos postos mais elevados de uma nação?

Nesta desenfreada luta pela conquista do posto máximo, ou dos lugares nobres desta pseudo-corte ou casta dos “mais iguais” entre seus iguais, estão no jogo os acordos espúrios, as malicias e conchavos, visando à apropriação particular e uso próprio do que é de todos. Ou de todos deveria ser.

Muito antes dos recentes levantes no norte da África, em sociedades historicamente teocráticas ou monarquicas, era possível perceber este distanciamento em todos os pleitos nos países ditos democráticos. Onde não ocorreram, ainda, levantes. Alguns protestos aqui e acolá, mas fundamentalmente o perceptível desencanto nos resultados eleitorais: crescente abstenção.

O Estado, como o conhecemos, sofre de grave enfermidade. Em breve sofrerá de “falência múltipla de órgãos”, colapsando todos os sistemas a ele ligados: justiça, parlamento e executivos. Justiça que não faz justiça; parlamento que deixou a muito de se lugar de diálogo com a sociedade e executivo que nada executa. Um efeito dominó. No espaço histórico, talvez ocorra nos próximos 25 ou 50 anos. Um piscar de olhos.

A sociedade, apartada deste Estado, sofre de enfermidades também. Mas que não lhe atinge o corpo e sim a mente, ou o espírito social: psicoses diversas e esquizóides.

Tal desencanto desestimula a paixão, afasta seus indivíduos dos interesses por melhores tempos, “cada um em seu quadrado”, cuidando do que é seu. Dane-se o resto.

Ah, sim, temos ai as tecnologias virtuais, as assim chamadas (equivocadamente ou propositalmente) “redes sociais”. Um multiverso de egos inflamados na incansável busca pelos 15 minutos de fama, um diálogo de surdos, espaço de falar, não para interagir.

Postura preferencial adotada pelos “representantes” deste Estado decrépito, postando para si próprios, tal qual o fazem ao discursarem nas tribunas parlamentares para um auditório vazio. Ah, sim, ficará “registrado nos autos” e fará parte do acervo histórico das idiotices universais.

Os tremores já se fazem sentir em todos os cantos, ampliando ainda mais esta separação entre individuo e Estado. Logo ali a frente se prenuncia abalo de grande magnitude, ao que se seguirá terrível tsunami, varrendo para o lodo da história todos estes que teimam em não ver e não ouvir.