Brasil nunca elegeu um operário presidente

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O problema dos rótulos é esse: inventam-se mentiras para justificar manchetes.

Este não é um problema exclusivamente brasileiro, a mídia de forma geral sempre busca frases de impacto (muitas vezes falsas) para vender a informação.

Felizmente, hoje, temos Internet e suas maravilhosas ferramentas para compartilharmos em tempo real informações e conhecimentos. E a mídia ainda não sabe como lidar com isto.

Fica cada vez mais difícil mentir e sustentar mentiras por tanto tempo. A próxima guerra já está anunciada: será entre fato e versão. A informação ganha cada vez mais transparência e o futuro está reservado a mundo sem segredos. Mas há forte resistência, não apenas dos governos e instituições, como de parcela significativa de jornalistas que se consideram “os únicos capazes de checar fontes e interpretar as informações que serão divulgadas”.

Faço esta introdução para reafirmar o título deste artigo.

De fato, Lula foi operário, empregado das Indústrias Villares até 1972, quando foi eleito diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, ficando a disposição do sindicato. Em 1975 é eleito presidente da entidade. Em 1980, ao lado de lideranças sindicais, intelectuais, artistas e militantes da Teologia da Libertação, funda o Partido dos Trabalhadores, do qual foi presidente, reeleito inúmeras vezes até 1994. Perde as eleições ao governo de São Paulo em 1982 para Franco Montoro. Elege-se deputado constituinte em 1986 (quando chama seus colegas de “os 300 picaretas”). Desiste da reeleição para a Câmara Federal, preferindo permanecer na presidência do PT, sendo aclamado presidente de honra de 1992 até assumir pela primeira vez a presidência da República, em 2002.

O resumo biográfico acima está disponível em diversos sites e blogs na Internet, além do site do Partido dos Trabalhadores. Portanto, informações abertas e disponíveis a quem desejar.

E é justamente a partir desta biografia que podemos constatar: nunca elegemos um operário presidente do Brasil. No máximo elegemos um ex-sindicalista. Qual a profissão de Lula então? Fácil perceber que é de político profissional, avaliando sua atuação frente ao partido, ao qual se dedicou em tempo integral e dele recebeu proventos para seu sustento.

Diferente de tantas outras lideranças partidárias, que acumulam a presidência das agremiações a suas atividades profissionais.

Mas ai, novamente a mídia, precisa de um ícone, de um mito e assim surge o “presidente-operário”. Era preciso igualar o país a outros, ainda tendo como eco a eleição polonesa de Lech Walesa, sindicalista fundador do “Solidariedade”, abençoado por “Karol Wojtyla” - então Papa João Paulo II.

Ora, se a Polônia, pós “queda do muro”, com apoio da Igreja Católica, podia eleger um sindicalista, porque nosso país não poderia fazer o mesmo? Tínhamos todos os fatores favoráveis: um partido fundado por sindicalistas, apoio da militância católica da Teologia da Libertação, simpatia dos intelectuais e artistas. E, mais importante, um líder sindical tosco e carismático que representaria um “estrato social”: o migrante pobre nordestino.

Ainda mais importante que isto, para o “estabelichment”, era evitar a eleição de Brizola – com o medo de um novo Jango, uma guinada à esquerda.

Pronto, “o caldo de cultura” estava pronto. Agora era fermentá-lo e servi-lo. Faltava acalmar as elites econômicas e políticas. Daí o retardamento da posse de Lula, somente possível após 4 tentativas, quando as linhas partidárias flutuam ao centro e acomodam as forças conservadoras.

E é assim que em 2002 elegemos um político profissional, presidente partidário, que há 27 anos deixara de ser operário.