Bicicletas da discórdia

bicicletanaoO recente episódio do casal que foi ao Mercado Público de Porto Alegre realizar compras de bicicleta expõe o despreparo da nossa cidade, a inação governamental e o descaso com a população.

A crítica não é dirigia ao atual governo, nem ao meu amigo Valter Nagelstein. Também não vou criticar a funcionária da SMIC que deu uma resposta, de acordo com o que pensa. Apenas reflete a triste realidade: “use a bicicleta para lazer, não como transporte alternativo”.

O caso das bicicletas repercute em toda cidade: não temos bicicletários em praticamente nenhum parque ou praça da cidade; nos shoppings; nos supermercados. Ano passado foi aprovado o “Plano Diretor Cicloviário”. Lindo no papel. Como também os projetos das ciclovias. Ainda em projetos.

Também a mídia, neste caso específico a Zero Hora, que fez a matéria cheia de mensagens cifradas, demonstrando seu posicionamento em relação ao governo municipal.

É claro que um secretário e mesmo o prefeito não tem acesso a todos os emails enviados às secretarias. Talvez o bom senso indicasse que a funcionária, antes de responder, tivesse consultado o secretário. Mas o detalhe da resposta é o de menos.

O caso é que nossa cidade não está preparada para estimular as pessoas a utilizarem transporte alternativo em seus deslocamentos.

Mas vejam bem: bicicleta não pode, carroça pode.

À noite o Largo Glênio Peres, esplanada em frente ao Mercado Público, se transforma num grande estacionamento. Muito justo. Medida acertada, facilitando e estimulando que freqüentemos o centro da cidade. Mas não tem bicicletário.

O caos no trânsito não é responsabilidade exclusiva da falta de obras viárias. No quadro atual, com a quantidade de veículos que entram em circulação, não há obra que resolva. O que resolve é uma nova postura dos cidadãos. O que resolve é o aperfeiçoamento do transporte coletivo e o estimulo para que a população o utilize mais e melhor. O que resolve é deixar a procrastinação e a inação de lado e agir com rapidez.

No caso das “bicicletas da discórdia” é bem simples: instalem logo o bicicletário no Mercado Público. Ah, eu sei, tem a questão da verba, do projeto, do espaço, da discussão. Mas há espaço para sua implantação. Projeto? Temos as faculdades de engenharia e arquitetura. Quem sabe um concurso entre seus estudantes? Verba? Não é de interesse dos comerciantes do Mercado instalar um bicicletário? E de seus fornecedores? Ora, um rateio ou até mesmo a busca de um “padrinho/patrocinador” e pronto. Mas ai tem a discussão. Esta é a parte mais difícil. Que tipo de material será empregado? “Mas ali, tirando espaço dos carros (sempre os carros)?”. “Tem que ser dois metros pra cá” e outro vai retrucar “Não, tem que ser dois metros pra lá”. E assim ficaremos “ad eternum”.

Como é mais importante discutir um e-mail que apontar soluções, não haverá solução.

Claro que a Zero Hora ou o Grupo RBS não tem qualquer obrigação em realizar obras para a cidade. Mas não seria uma atitude simpática procurar o secretário da SMIC, a Associação dos Empresários do Mercado Público e se oferecer para colaborar na implantação de um bicicletário?

Quem sabe esta atitude estimularia outras empresas a adotarem bicicletários em praças, parques?

Ora gente, soluções existem. Basta apenas um pouquinho de criatividade e o ingrediente essencial: boa vontade.