Eleição 2010: mesmos números, outra leitura


Pelas atuais normas eleitorais, o TSE exclui do cálculo a abstenção, os votos nulos e brancos, ficando apenas com os chamados “votos válidos”. É uma forma de ler e interpretar, sem considerar os votos de protesto, de descontentamento, de revolta.
E é uma forma prática de garantir que sempre haverá um vencedor, independente do desejo de parte do eleitorado. Com base nestas regras, jamais uma eleição será anulada, mesmo que a abstenção mais votos nulos mais votos em branco sejam a maioria absoluta.
Ofereço outra leitura, utilizando os mesmo números, mas calculando sobre o total de eleitores, sem excluir nada. A visão muda e percebemos um equilíbrio de forças, ao mesmo tempo em que há grande descontentamento com todas as propostas apresentadas.
Vejamos:
1o. turno:
Total de eleitores: 135.804.433 - 100%
DILMA: 47.651.434 - 35,08%
JOSÉ SERRA: 33.132.283 - 24,39%
MARINA SILVA: 19.636.359 - 14,45%

Brancos: 3.479.340 - 2,56%
Nulos: 6.124.254 - 4,50%
Abstenção: 24.610.296 - 18,12%
Total: 34.213.890 - 25,19%

Já aqui observamos que ¼ do eleitorado não deseja nenhuma das propostas, somando abstenção, nulos e brancos. Neste cálculo, o total supera inclusive o 2º colocado, José Serra.
No 2º turno amplia um pouco o número de insatisfeitos, com diminuição dos brancos e nulos, mas aumenta a abstenção.
Também é interessante perceber o seguinte: Dilma cresce em números absolutos 8.101.049 votos; José Serra cresce bem mais: 10.578.879 votos. Somando o crescimento de ambos, temos 18.679.928 votos, ou quase o total de Marina Silva. Em percentuais José Serra também cresce mais que Dilma: 7,79 pontos contra 5,97 pontos da candidata situacionista.

2o. turno:
Total de eleitores: 135.804.433 - 100%
DILMA: 55.752.483 - 41,05%
JOSÉ SERRA: 43.711.162 - 32,18%

Brancos: 2.452.594 - 1,80%
Nulos: 4.689.397 - 3,45%
Abstenção: 29.196.864 - 21,50%
Total: 36.338.855 - 26,75%

No 2º turno abstenção cresceu 3,38 pontos. Talvez o feriado tenha contribuído, mas não chegou a afetar o resultado final da eleição.

O que se vê é um cenário de equilíbrio, entre os que apoiaram a proposta vencedora, a oposição ao atual modelo e aqueles que se opõem a ambas. Ou que simplesmente lavaram as mãos, estão desinteressados. É neste segmento que as atenções devem se voltar. São nestes 26,75% dos eleitores que políticos e analistas têm que se debruçar para tentar descobrir suas inquietações.

No mapa elaborado pelo Estadão podemos ver claramente o equilíbrio no país.


Outra avaliação interessante, e por isto utilizei os números totais, é que os 80% de avaliação positiva de Lulla não foram suficientes para eleger sua candidata no primeiro turno, nem lhe garantir votação expressiva no 2º. E se de fato tem este elevado índice de aprovação, porque ¼ dos eleitores não optaram pela proposta de continuidade?

Esta é outra questão para estudo aprofundado. Pessoalmente não acredito neste alto índice de avaliação positiva.

Fica claro, mais uma vez, não há transferência de voto. Em Minas Gerais Aécio Neves fez seu sucessor e obteve grande votação para o senado, mas Serra perdeu. Já no Rio Grande do Sul, Tarso Genro ganha no 1º turno, e Serra vira sobre Dilma no 2º turno.

Também devemos considerar que a campanha da situação não contou apenas com seu principal “garoto propaganda” Lulla da Silva, mas a poderosa máquina estatal esteve a seu favor. Fatos que contribuíram para a vitória, mas aquém dos números obtidos por Lulla em 2006.

O fato é que Dilma terá de compor e negociar. A maioria no Congresso, com aumento nas bancadas do PT e PMDB, não serão suficientes. O próprio PMDB, do vice Michel Temer, está dividido. PSDB perdeu cadeiras na Câmara e Senado, mas fez 8 governadores contra 5 do PT. O resto são aliados. Ai entram as negociações, cargos, ministérios, verbas.

Em última análise, parcela considerável do eleitorado rejeitou tudo isto, desde o primeiro turno.

Apesar de ter votado a assumido uma posição, também não me agrada o que temos. Particularmente penso que nosso sistema representativo faliu. Da forma como está, não representa nada.

Missão: pensar novas formas e novos modelos. Mais próximos da população. Que de fato empoderem e emancipem o cidadão.