Aluno 2.0 versus Escola 0.1


A começar pela arquitetura, nossas escolas foram concebidas nos modelos de quartéis: completamente assépticas. Não, não estou falando da limpeza tradicional. Mas da completa faxina aos estímulos para aprendizagem.
Recentemente algumas escolas, principalmente as privadas, trataram de colorir seus prédios, pintando paredes, gradis, pisos. Como se a aplicação de cores fossem suficientes.
Segundo, nossa base curricular está anos luz de distância de nossas realidades. E continuamos a formar, nas faculdades, professores que repetirão os mesmos “mantras sagrado” que vêm sendo entoados há mais de 100 anos.
O que temos nas escolas que possam despertar a curiosidade dos alunos? Nada. Sequer os chamados “laboratórios de informática” (?) ou “telecentros” (?) são capazes de iluminar as trevas.
Há muito formalismo, muito academicismo no “processo educativo”. Que termo horroroso! Como já cansei de dizer, tudo começa mesmo no erro conceitual: EDUCAÇÃO. Escola NÃO educa, professor NÃO educa. Escola deveria ser um ambiente de aprendizado. Mas teimamos em manter o Ministério da Educação. Ora, se partirmos de um conceito equivocado, jamais chegaremos a uma conclusão próxima do correto.
Talvez o termo utilizado seja uma mensagem subliminar. Como sempre ouvimos falar que professores deveriam ser “vocacionados”, Ministério entra aqui como algo religioso. Ai é ter “fé” que nossa juventude possa adquirir conhecimentos.
Assim, não temos escolas: temos Centros de Adestramento. Ali são despejados conteúdos, repetidamente à exaustão, até que seus “adestrandos” possam repeti-los. Paulo Freire já falava da “educação bancária”: "A educação bancária tem por finalidade manter a divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os oprimidos e opressores. Ela nega a dialogicidade, ao passo que a educação problematizadora funda-se justamente na relação dialógico-dialética entre educador e educando; ambos aprendem juntos".
Desta forma, mantemos a “ordem unida” das escolas-quartéis.
As salas de aula têm o formato hierarquizante, todos dispostos em fila, com a grande mesa do “mestre” à frente. Visto de cima, é o modelo de organograma: “manda quem pode, obedece quem precisa”. Não, não, aqui não há qualquer pregação ao desrespeito pelo professor, muito menos a indisciplina. Disciplina nada tem a ver com hierarquia, muito menos com metodologia militar.
E neste esquema perverso, a escola faz tudo, menos o mais importante: estimular a formação do pensamento. Sem isto, todo o resto é irrelevante.
Por que mais de 70% de formandos do ensino médio são considerados “analfabetos funcionais”? Sabem ler, mas não conseguem interpretar o que lêem. Porque foram “adestrados” a preencherem “fichas de leitura”, nunca em discutir as obras.
Não há formação de pensamento sem processos ou estímulos cognitivos.
Para não ficar falando sozinho, trago a contribuição de dois pensadores importantes:
Lev Semyonovich Vygotsky (1896-1934): “o pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses e emoções. Por trás de cada pensamento há uma tendência afetivo-volitiva. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só é possível quando entendemos sua base afetivo-volitiva.” (Vygotsky, 1991 p. 101)
Jean William Fritz Piaget (1896-1980): “a educação forma um todo indissociável e não é possível formar personalidades autônomas no domínio moral se o indivíduo estiver submetido a uma coerção intelectual tal que o limite a aprender passivamente, sem tentar descobrir por si mesmo a verdade: se ele é passivo intelectualmente não será livre moralmente. Mas reciprocamente, se sua moral consiste exclusivamente numa submissão à vontade adulta e se as únicas relações sociais que constituem as relações de aprendizagem são as que ligam cada estudante individualmente a um professor que detém todos os poderes, ele não pode tampouco ser ativo intelectualmente.” (Piaget, 1975 p. 115)
Principalmente nos dias de hoje, com inúmeras e incontáveis fontes de estimulo: TV, Internet, celular, livros, grupos e redes sociais, o Aluno já é 2.0. Mas a Escola se mantém 0.1, sem qualquer perspectiva de upgrade em seu “mainframe” (computador central), muito menos de atualização de seus sistemas, para novas versões, adequadas aos novos tempos.
Mudemos os conceitos fundamentais, equivocados, e estaremos dando passos largos em direção a aprendizagem, colaborando no desenvolvimento de indivíduos emancipados e livres.
#prontofalei