A questão do transporte e do trânsito

Os problemas de trânsito não são uma peculiaridade apenas brasileira. Nossa peculiaridade é ainda apostarmos no transporte sobre rodas, apostarmos no petróleo, revivendo na discussão do “pré-sal” a campanha do “petróleo é nosso”.

Diversos países adotaram modais de transporte de passageiros e de cargas mais eficientes e econômicos, utilizando ferrovias e hidrovias, otimizando recursos. Infelizmente, nós optamos nos anos 50 pelo “país sobre rodas”, sucumbindo às pressões da indústria automobilística.

Se naquele momento histórico, para a industrialização do Brasil, se fazia necessário incentivar este meio de transporte, nos faltou visão de futuro, planejamento de longo prazo para preparar o país-continente aos desafios do século XX e XXI.

E permanecemos no erro, investindo em tecnologias para exploração de petróleo, insistindo no álcool combustível como alternativa (programa que surgiu na tentativa de resguardar o país contra novas crises do petróleo como a de 1973), ao invés de utilizarmos nossas faculdades, nossos cérebros nacionais em pesquisas de fontes alternativas de energia.

Aliás, investimento em pesquisa também é incipiente no Brasil. No ranking da WIPO (World Intellectual Property Organization – Organização Mundial de Propriedade Intelectual), nosso país está em 24º lugar no registro de patentes, com apenas 384, enquanto a Coréia do Sul desbancou a França, chegando a 4ª posição com 7.061 registros, bem como a China que subiu para a 7ª posição, com 5.456 registros. O ranking é liderado pelos EUA na 1ª posição, seguido de Japão e Alemanha.

Com visão estratégica equivocada e pressionado pelo lobby das montadoras e sindicatos dos metalúrgicos, o governo federal concede incentivos para aquisição de veículos com redução de alíquotas de IPI, ampliando o número de veículos em nossas ruas e estradas, sem as menores condições de absorverem esta demanda. Não há engenharia de trânsito ou obras viárias capazes de solucionar o problema no curto ou médio prazo.

Os governos federal, estaduais e municipais deveriam sentar a mesa para estabelecer políticas públicas de transporte de passageiros e de cargas, incentivando o investimento em transporte coletivo de qualidade; desenvolver campanhas para utilização deste tipo de transporte, bem como incentivar a pesquisa para o desenvolvimento de tecnologias nacionais em alternativas energéticas;

É possível, através de cooperação mútua e em co-responsabilidade da sociedade conscientizada, mudar o quadro atual em apenas 15/20 anos. O impacto não se fará sentir apenas em nossas ruas e estradas, mas também na qualidade do ar que respiramos, na drástica redução de acidentes, com conseqüências econômicas até na saúde.

Pensemos nisto e nas propostas dos candidatos, com a proximidade das eleições de 2010. Vejamos quem terá coragem de enfrentar os lobistas e optar por soluções que realmente atendam as necessidades da população.