Novembro na história

Se agosto é o mês do “cachorro louco”, novembro é pródigo em acontecimentos históricos que marcaram a humanidade ou pelo menos alguns de nós.

Em 11 de novembro de 1956 surgia uma das maiores frentes da resistência aos “anos de chumbo” que se avizinhavam, a UMESPA (União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Porto Alegre). Seu auge ocorreu nos anos 70/80 e as lutas pela anistia ampla, geral e irrestrita, o retorno dos exilados, o direito às passagens de ônibus para os estudantes, as “diretas já”, entre tantas outras bandeiras.

E no último dia 06 de novembro, pela vontade e articulação do sempre presidente Valter Castilhos, o Valtinho, reuniram-se 124 ex-membros e membros dos anos 60 até os dias de hoje, num fraternal reencontro, mais de 30 anos depois.

Em novembro de 1989 temos duas ocorrências significativas, que mudaram os rumos da história mundial e local para sempre:

- No dia 9, a derrubada do Muro de Berlim. Chegava ao fim o comunismo, a ditadura stalinista, uma aventura que produziu milhões de vítimas, entre mortos, perseguições políticas e tantas atrocidades promovidas por uma idéia equivocada. Porém, também nos mostrou que ainda temos muitos outros muros para derrubar e que é possível, desde que tenhamos vontade de fazê-lo: muros do preconceito, da pobreza, da ignorância, do poder pelo poder, da demagogia, da intolerância.

- Alguns dias depois, no dia 15, votamos diretamente para presidente, reinaugurando um ciclo democrático em nosso país. Infelizmente, nesta primeira oportunidade, tive que anular meu voto, por não acreditar em nenhuma das propostas que seguiram para o segundo turno, e não acreditar em nenhum dos dois candidatos que chegaram lá: Collor e Lula. E ainda hoje não encontro razões para mudar aquela percepção de 20 anos atrás. Os fatos que se seguiram e que seguem, reafirmam e confirmam minha decisão. Difícil decisão, mas profundamente comprometida com meus princípios.

O mundo titubeia entre tiranetes-demagógicos de plantão, com sonhos napoleônicos de se perpetuar no poder e conquistar novos territórios, satisfazendo seus enormes egos e vaidades pessoais e o mundo livre, democrático, onde a política é exercida na plenitude da cidadania.

Localmente, nossa democracia ainda está em amadurecimento, com grande risco de retrocedermos mais uma vez às sombras. Ainda não aprendemos a votar e ainda não percebemos totalmente que o voto em si não representa a democracia, que é muito mais ampla e complexa, do que simplesmente escolher entre este ou aquele. Ainda nos deixamos levar pelos “cantos da sereia”, pelos discursos fáceis, pela demagogia, pelas propostas milagrosas, pelo assistencialismo em detrimento do resgate da cidadania.

E, não raro, ouvimos aqui por aqui reverberar o desejo dos 20% de Alemães Orientais, que desejam a volta aos tempos do muro: não tinham liberdade, mas tinham emprego, casa, comida e educação. No nosso caso, alguns desejam o retorno aos tempos de chumbo (percentual ainda não detectado por pesquisas oficiais): não tínhamos liberdade, mas vivíamos em plena segurança, sem escândalos, era o país que ia dar certo.

20 anos, em termos históricos, é quase nada. Temos ainda uma grande jornada pela frente, talvez 200 anos, para efetivamente consolidarmos a democracia no mundo, eliminando definitivamente as ameaças à liberdade. Mas é um trabalho do dia-a-dia, de estarmos sempre atentos e alertas, de praticarmos incansavelmente a partir de nossas relações mais próximas.

Daí quem sabe, num novembro qualquer em 2229, as gerações futuras possam comemorar a queda de todos os muros e o reencontro fraterno e festivo daqueles que lutaram pela liberdade, in memorian.