Há mais de uma “Ética”?

Freqüentemente leio e escuto falar em “ética de mercado”, “ética política”, “ética profissional”. É ética disto e ética daquilo.

Se buscarmos o significado original, do grego “ethos”, veremos que tem a ver com “caráter” ou “modo de ser”. Caráter, por sua vez, designa a índole individual, aquilo que trazemos no âmago de nosso ser, que vai se moldando de acordo com o meio, a começar pela célula familiar.

Aristóteles nos ensina em sua “Ética a Nicômacos”, que nossa busca deva ser a “excelência moral”, pela prática do bem maior, seguindo o caminho do “bom senso” ou do “meio termo”.

Ora, então, por analogia, se é errado (eticamente) pagar a passagem da namorada com verba do gabinete, também é errado (eticamente) usar a cota de passagens mesmo sem mandato. Como é o caso recentemente descoberto do Senador Suplicy e da ex-Senadora Heloísa Helena. Mesmo que diga não fazer parte deste “grupo de usurpadores”, se beneficiou também.

Chama a atenção as denúncias tanto da Revista Veja, como as do PSOL, que apresentaram gravações de supostas conversas e cópias de e-mails de terceiros. No primeiro caso a Revista usará do direito (?) de não revelar sua fonte, pelo exercício da atividade jornalística. Mas quanto a um partido político, é assegurado o mesmo direito? E cá entre nós: tais gravações (se existirem mesmo) não fazem parte de processo que corre em segredo de justiça? Como então vieram a público? Quem as forneceu à imprensa e aos partidos? E no caso dos e-mails apresentados como provas de conversas sobre ilicitudes (a rigor, lendo os e-mails nada há de ilicitude), não configura quebra de sigilo de correspondência?

Onde está a tão propalada “ética”?

Aristóteles também nos ensina que não se desfaz uma injustiça com outras injustiças. Mas parece que ninguém se dá conta disto tudo. Todas as atenções recaem sobre os fatos denunciados e não sobre a forma como as informações foram coletadas.

O procedimento correto de qualquer cidadão que tenha conhecimento de atos ou fatos criminosos é denunciá-los as autoridades competentes, para que elas tomem a si a tarefa de investigá-los.

Ou estaremos na ante-sala do “estado-policial”? Nosso destino é o neofascismo ou o neonazismo? Ou coisa pior. É de fato isto que queremos?

Não há diversas “éticas”, que resolva usar conforme meus interesses pessoais ou de acordo com a estação. Assim como um ato criminoso não desculpam outros. Certamente “os fins não justificam os meios”.

Se rompermos este preceito, se firmarmos este conceito em nosso caráter, se nos deixarmos governar pela cólera, pela vingança, justificando injustiças com outras injustiças, então realmente não haverá saída para a humanidade: destruir-nos-emos uns aos outros.

Tristemente vemos ressurgir em nosso estado os mesmo episódios que marcaram os 8 anos de Fernando Henrique Cardoso. Naquele tempo, Brasil a fora, muros e paredes pichados com o “Fora FHC”, “Fora FMI”. Por estes pagos ainda havia equilíbrio, fora uns poucos que bradavam pelas esquinas, os mesmos de sempre.

É como a reedição da “guerra-fria”, com lances de torpes política, que a todos envergonham. E não poderia ser diferente, estando no centro “viúvas e órfãos” de sistemas falidos, inconformados, ressentidos. Mas que nem por isto deixam de aproveitar as benesses de seus cargos e mandatos.

Que tristeza, ver nosso estado mergulhado em tudo isto.

Agora não há mais sentido em manter o sigilo, o “segredo de justiça”, que gera toda sorte de interpretações. Cabe ao judiciário vir a público e dizer toda a verdade, doa a quem doer pondo fim às especulações e restaurando a governabilidade.

Caso contrário, arderemos todos nesta “fogueira das vaidades”.