Diabolices, sandices e escrachos

Parece que a inversão de valores não tem mais fim ou limites. Joga-se “meleca” no ventilador e salvem-se quem puder.

O arcebispo de Olinda e Recife resolveu ser draconiano e decretar a excomunhão da mãe da menina de 9 anos, estuprada pelo pai, juntamente com os médicos que realizaram o aborto. A comoção não se deve a aplicação das Leis da Igreja, onde o aborto é considerado crime e a excomunhão é automática. O fato que beira o diabólico foi o arcebispo ter declarado que “o estupro é um crime menor que o aborto”. Então está! Para a Igreja, está aberta a temporada de estupro.

Não sou defensor do aborto, não pelos preceitos religiosos. Defendo a vida. Havendo meios de evitar a gravidez, não há porque praticar o aborto. Entretanto, não sou radical e, como em tudo na vida, devemos avaliar as circunstâncias e os fatos antes de pré julgar. Neste caso, ocorreu um assassinato anterior ao aborto: a menina de 9 anos teve sua infância arrancada pelo próprio pai. Não é um caso isolado, nem é o primeiro ou será o último, infelizmente. As varas de Infância e Juventude, país a fora, estão repletas de casos ainda mais escabrosos.

Também cabe ressaltar que as igrejas são conservadoras e não mudarão as regras apenas por que “meia dúzia” discorda. Aliás, as posições da Igreja Católica, sob a batuta de Bento XVI, recrudesceram exatamente na busca das “ovelhas desgarradas” que viam posições muito liberais na gestão de Karol Wojtyla. Como a pregação contra o uso da camisinha, que gerou forte protesto na França. Recente pesquisa de opinião aponta que 81% dos franceses querem a abdicação do Papa. É chover no molhado!

Na linha das sandices, que também podem ser qualificadas como diabolices, estão as denúncias do PSOL e do delegado Protógenes. Sobrou para todo mundo. De Lula a Yeda, passando por empresários e judiciário, não escapou ninguém. Talvez o que falte ao PSOL seja um marketing melhor, pois a tática é a mesma usada pelo PT durante anos. Me impressiona mais é a imprensa, a mídia tradicional, dar espaço e colaborar com tudo isto, sem checar fontes e a veracidade. O que se vê é a inversão total de valores: os denunciados é que tem que provar sua inocência. Antigamente cabia aos acusadores provar a culpa. Assim fica fácil: todo mundo atira nos seus desafetos e fica por isto mesmo. Cadê o judiciário?

Por fim o escracho total com a população. Dos bônus milionários para executivos de empresas americanas falidas às 181 diretorias do Senado brasileiro. E todo mundo parece anestesiado. Não se vê levantes, não se vê passeatas, protestos. Nem mesmo do PSOL, tão indignado com banqueiros e políticos locais, não se viu uma linha na imprensa que demonstrasse sua comoção. Estarão de fato interessados em moralizar as instituições ou é apenas estratégia pré-eleitoral, antecipando 2010?

O povo já cansou destas coisas. As urnas nas próximas eleições demonstrarão isto novamente, para quem ainda não entendeu.